David Mourão-Ferreira

Portugal
24 Fev 1927 // 16 Jun 1996
Poeta/Escritor

Saudades de Lisboa

Saudades de Lisboa... Como não sentir, mesmo em Lisboa, saudades de Lisboa? Nos bairros mais antigos há certos núcleos ainda preservados, certos recantos miraculosamente quase intactos, mas na sua maioria as ruas por onde passamos já não são as ruas por onde passámos, nem os panoramas de conjunto nem os quadros avulsos da vida citadina são já os mesmos de há quinze ou vinte anos. E a cada passo nos surpreendemos — todos aqueles que ultrapassámos o mezzo del cammin — a confundir intimamente duas sobrepostas imagens de Lisboa, sem bem cuidarmos de sondar, as mais das vezes, qual delas é a verdadeira.
Não foi apenas, nos últimos decénios, o cadaveroso aumento da população; não foi apenas a pastosa intensificação do tráfego; não foi apenas a fúria demolidora que sobre a cidade se abateu e que nos vem privando, sistematicamente, de espécimes arquitectónicos do século passado e de começos do actual, a ponto de os vindouros arribarem talvez à conclusão de que transitámos, ex abrupto, dos tempos do senhor D. Miguel para o terceiro quartel do século XX... Foi qualquer coisa de mais subtil: como que uma estranha insuficiência glandular, daquelas que transformam, em curto prazo, uma esbelta e solerte rapariguinha numa anódina criatura opada. Temos a sensação de que Lisboa não cresceu: alastrou; e de que em vez de progredir, de caminhar, de fazer exercício, se limitou a cruzar os braços, a recostar-se, a olhar-se ao espelho, a receber visitas...

Mas será exacta semelhante impressão? Não será ela, pelo contrário, um sintoma do nosso próprio envelhecimento ou pelo menos um indício de que a juventude nos vai deixando? Não ocultará ela, em suma, um simples fenómeno de «projecção»? Provavelmente, para aqueles que têm agora vinte anos — Lisboa tem agora vinte anos. Talvez esta «cidade», mais do que muitas outras, rime terrivelmente com a «idade» de cada um. O mais curioso é que não faltam exemplos, entre os autores que têm escrito sobre Lisboa, de quem tenha principiado a dirigir-lhe madrigais para depois crivá-la de pragas; como também não escasseiam os casos dos que mantêm perante ela uma atitude ambivalente — amor e ódio, ternura e desprezo — que porventura, em alguns deles, se terá originado em fases distintas da existência. E o mais curioso, ainda, vem a ser o facto de muitos confessarem — mesmo em Lisboa — saudades de Lisboa.
(1967)

David Mourão-Ferreira, in 'Terraço Aberto'




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