Pablo Neruda

Chile
12 Jul 1904 // 23 Set 1973
Poeta [Nobel 1971]

Somos o Mistério

No fim desta época, como se toda a longa viagem tivesse sido inútil, volto a ficar sozinho nos territórios recém-descobertos. Como na crise do nascimento, como no começo alarmante e alarmado do terror metafísico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crepúsculo que a minha própria criação provocou, entro numa nova agonia e na segunda solidão. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e não encontro senão o vazio que as minhas próprias mãos elaboraram com persistência fatal.

Mas o mais próximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalculável, não apareceria, afinal, senão neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas não no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o coração do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto fábricas de trágico aspecto, mas não vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as estações, nas cidades e no campo.

Às primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, saíram delas borbotões de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da angústia humana e começou a subir por ela uma torrente de raízes e de sangue. Desde então, o meu caminho une-se com o caminho de todos. E, de repente, vejo que fui do sul da solidão para o norte que é o povo — o povo ao qual a minha humilde poesia quisera servir de espada e de lenço, para lhe limpar o suor das grandes dores e lhe dar uma arma na luta pelo pão.

Então, o espaço torna-se grande, profundo e permanente. Estamos já de pé sobre a terra. Queremos entrar na posse infinita de tudo quanto existe. Não procuramos o mistério, somos o mistério. A minha poesia começa a ser parte material de um ambiente infinitamente espacial, de um ambiente a um tempo submarino e subterrâneo, entrando por galerias de vegetação extraordinária, conversando em pleno dia com fantasmas solares, explorando as cavernas do minério escondido no segredo da terra, determinando as relações esquecidas do Outono e do homem. A atmosfera escurece e aluminam-na por vezes relâmpagos carregados de fosforescência e de terror; uma nova construção, longe das palavras mais evidentes, mais surradas, aparece na superfície do ar; um novo continente se ergue da mais íntima matéria da minha poesia. A povoar estas terras, a classificar este reino, tocando-lhes todas as margens misteriosas, a apaziguar a sua espuma, a percorrer a sua zoologia e a sua geográfica longitude, passei anos obscuros, solitários e remotos.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"




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