Thomas Bernhard

Austria
9 Fev 1931 // 12 Fev 1989
Escritor

Treinado em Estar Só

Sim, é horrível, mas acho que necessitamos, temos que... ter contactos. Não pode ser de outra maneira... Enfim, quanto menos melhor. E assim cada um vai tecendo o jersey da sua vida, uns com mais ponto de coração, outros com menos, todos com uma quantidade de pontos soltos, e no fim está tudo emaranhado, cheio de buracos, curto e apertado. Acaba-se o lavor e verifica-se que a parte da frente já foi mordiscada por ratos e traças. Temos a obra de arte estropiada, e então Nosso Senhor diz «Óptimo!».
Quando se está muito tempo só, quando se está acostumado a estar só, quando se está treinado em estar só, descobrem-se em toda a parte, ali onde para os outros não há nada, cada vez mais coisas.

De momento, não suporto ninguém. Só a ideia de que podia vir alguém... Grrrrr, é horrível, insuportável... «Você devia ir» — mas não há que ir, a nenhum lado nem a nada...
Contudo, viajei por toda a parte, fiz rádio, fiz... sei lá o que fiz. Também vivi disso. Então, um belo dia, aquilo espantou-me subitamente e disse para mim mesmo: não suporto mais isto. Acabaram-se as leituras em público de coisas que não me interessam nada, me horrorizam e das quais me afastei. Já não precisava tanto de dinheiro. Além disso, não gosto muito... não levo uma vida como a que normalmente leva essa gente, sempre a mesma... não preciso de quase nada... Já não havia nenhuma razão para «contactos», e acabou-se. Quanto às honrarias, depressa lhes deu o fanico, desapareceram, juntamente com toda essa mentira dos prémios e outras histórias... tudo horrível...

Thomas Bernhard, in 'Trevas'




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