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Opinião de Leitura
Portugal, Hoje - O Medo de Existir Portugal, Hoje - O Medo de Existir

Autor: Gil, José

Leitor: Isabel Reis

Opinião

José Gil era até há pouco meses quase desconhecido da maioria dos portugueses, hoje é citado até por treinadores de futebol e imprensa popular. O livro que conseguiu trazer para a ribalta este filósofo - e considerado recentemente pela revista francesa [i]Nouvel Observateur[/i] entre os 25 grandes pensadores mundiais-, chama-se “Portugal, Hoje - O Medo de existir” e pretende ser uma espécie de radiografia ao carácter “português”.

Com um timing notável, editado nos finais do ano passado em pleno (des)governo santanista, José Gil trouxe mais achas para a fogueira da depressão nacional e pôs toda a gente nos media a falar da inveja e do medo portugueses.

“Portugal, Hoje" propõe-se denunciar, à laia de manifesto, os traços que explicarão o nosso atraso endémico. Escrito num tom vivo e acutilante este livro é de leitura fácil. Cada capítulo, curto e bem sintetizado, dedica-se a um dos factores que Gil considera contribuírem para o mal nacional. Assim, teremos entre outros a televisão, a não-inscrição, o medo, a inveja e o queixume. É inevitável concordarmos com alguns aspectos da análise do filósofo, no entanto, considero abusivo generalizar aos “portugueses” o quadro traçado. Haverá muitas similitudes entre a realidade e o descrito por José Gil mas também acontece o contrário. Se pegássemos nesta análise e a aplicássemos a outros países certamente se encontrariam semelhanças. Por outro lado, não é convenientemente explicado o porquê da situação. Somos um povo de invejosos? Seja. Mas porquê? donde nasceu essa inveja? O que nos faz ser diferentes de outros povos? O salazarismo não explicará tudo. Veja-se o caso espanhol, também eles sob um ditadura feroz durante décadas. “Portugal, Hoje” pecará por alguma superficialidade nas explicações avançadas e cede demasiado à tentação de psicologizar. Falta uma certa visão histórica. No entanto, não deixa de ser uma leitura importante quanto mais não seja porque nos faz pensar e pensar é o primeiro passo para nos fazer agir e mudar. Creio que a maior virtude do livro, e do seu estilo desencantado e pessimista, é a de agitar as consciências e num estilo acessível a todos.

José Gil começa por apontar o dedo à televisão que cria um clima de entorpecimento e de não-real, de não-acontecimento. A mediatização é apontada como sendo uma das responsáveis pelo nevoeiro que envolve a sociedade portuguesa não permitindo que se discirnam com clareza os factos.

A não-inscrição é outro traço dominante na psicologia nacional. As coisas passam mas não mexem verdadeiramente com as pessoas, não se inscrevem, resultando daí uma inacção, uma falta de afirmação e também de responsabilização.

A não-inscrição explicará também a falta de debate no espaço público ou até de verdadeiras críticas de arte, a livros, a espectáculos. As discussões são muito pobres, nunca se vai ao âmago das coisas e dos problemas, fica-se sempre pela superfície. “Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir”.

Também o medo, fruto dos anos de ditadura, impede que se assuma a liberdade plena, que se diga o que se pensa. Um certo culto do “sôtor” e a reverencia a quem tem poder são ainda peias que tolhem o pensamento e a acção livres. Por outro lado, pensamos que nunca estamos à altura, que não somos suficientemente bons, anulando-se assim todas as potencialidades criativas. É a famosa falta de auto-estima a que a tão badalada teoria da inveja promove. Ou seja, numa sociedade em que o imobilismo grassa quem quer fazer é, inevitavelmente, mal-visto, alvo de intriga e de maledicência. Quem se destaca será, portanto, excluído do grupo.

Gil continua a dissecar os males pátrios desenvolvendo a sua teoria da não-inscrição. Daí derivará também o “pensar pequeno” português, de que os abundantes “inhos” e “itos” e diminuitivos da linguagem são ilustrativos. “O ‘pequeno’ representa o tamanho perfeito, adequado ao seu investimento afectivo (...). O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias...”.






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