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Opinião de Leitura
As Partículas Elementares As Partículas Elementares

Autor: Houellebecq, Michel

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Michel e Bruno, dois meios-irmãos que vivem na França dos finais do século XX, são os protagonistas de um romance que resume as suas vidas do nascimento até à morte, envoltos no universo de sôfrega desilusão representativo da sociedade ocidental em declínio após as euforias utópicas lançadas pelas gerações de 1950 e 1960. Michel é um indivíduo indiferente a todo o tipo de emoções, vivendo apenas para a sua ciência genética que tem como objectivo o lançamento de um novo tipo de seres humanos que não tenham os defeitos dos actuais, Bruno é o seu contraste vivendo numa obsessão pelo sexo que o leva às portas da loucura. Em duas loucuras completamente opostas e com poucos pontos de contacto entre si, Michel e Bruno têm em comum uma mãe que os abandonou e que lhes gerou uma carência que nunca vão conseguir colmatar, apesar de a ambos lhes ser dado uma hipótese de serem felizes, já depois de terem ultrapassado os 40 anos, com duas mulheres verdadeiramente excepcionais.

Um romance que critica fortemente a sociedade de consumo dos nossos dias e que traz à luz todas as suas facetas decadentes em termos de desagregação social, destruição das famílias e laços familiares, reduzindo todos os indivíduos a partículas elementares isoladas e sós, fragilizadas num contexto de capitalismo selvagem e de eleição do ideal jovem e belo que a todos ostraciza, com as consequências psicológicas que traz, diversas para cada um, de um abandono que se entranha e torna todos pedras insensíveis egoístas que pensam apenas na sua própria sobrevivência e satisfação dos anseios mais imediatos, fabricados e estimulados a partir dos instintos mais básicos exacerbados pela publicidade em todos os meios de comunicação.

«As Partículas Elementares» é em grande parte um romance de ideias na medida em que muitos conceitos sociais, filosóficos e psicológicos, conjuntamente com conjunturas históricas, são analisados pelo autor que procura (e consegue) declarar a morte da humanidade tal como ela existe, depois do último expoente da sociedade que no fundo acaba, após a libertação final de todos os jugos ditatoriais políticos e religiões, por deixar a nú o facto de que o ser humano não se aguenta sem muletas e que se autodestrói num processo moribundo onde todos os seus defeitos (vaidade, egoísmo, ambição, domínio, etc), sem limites nem barreiras, afogam todos num isolamento total que profecia um novo ciclo histórico - ciclo esse que o mesmo autor só vê possível de ser ultrapassado através da criação de uma nova humanidade gerada por processos genéticos.

Aparte a temática depressiva, trata-se de um romance muito interessante, de leitura compulsiva e com um belo final, na senda dos acontecimentos que, apesar do fatalismo que os encerram, revelam seres humanos que lutam desesperadamente pela oportunidade de serem felizes - e, paradoxalmente, esse sentimento acaba por estar sempre presente, pela riqueza das descrições e diálogos que enternecem o leitor ao mesmo tempo que o choca (verdadeiramente) - felicidade encontrada em cada um em muitos momentos, ainda que esta nem sempre seja percebida na altura por cada uma das personagens, mas sim apenas depois (como tantas vezes acontece a qualquer um). Protótipos de anti-heróis, Michel e Bruno acabam por ser heróis representativos de uma multidão silenciosa que lança os seus gritos de desespero no limite da incompreensão do mistério da existência e fragilidade do ser humano.

Comentários

Prólogo pelo autor Michel Houellebecq:
Este livro trata sobretudo da história de um homem que viveu a maior parte da sua vida na Europa ocidental, durante a segunda metade do século XX. Foi fundamentalmente um solitário, mas não deixou de se relacionar com as outras pessoas. Viveu tempos que foram infelizes e conturbados. O país onde nasceu caía, lenta mas inelutavelmente, na zona económica dos países meio-pobres, e muita gente da sua geração, como se não chegasse viver à beira da miséria, também conheceu a solidão e a amargura. Os sentimentos de amor, de ternura e de fraternidade humanas tinham, em larga medida, desaparecido. Nas relações mútuas, os seus contemporâneos davam sobretudo provas de indiferença, se não mesmo de crueldade.

Atenção: Este romance contém descrições muito violentas e chocantes além de várias passagens verdadeiramente pornográficas - não aconselhável a leitores susceptíveis.

Excerto

Hoje, cinquenta anos mais tarde, a realidade só veio confirmar o alcance profético das afirmações de Hubczejak - a um nível que ele próprio não teria suspeitado. Ainda restam alguns humanos da antiga raça, em particular nas regiões que estiveram muito tempo submetidas à influência das doutrinas religiosas tradicionais. A sua taxa de reprodução, contudo, não deixa de diminuir de ano para ano e a extinção parece inevitável. Contrariamente às previsões pessimistas, esta extinção faz-se calmamente, apesar de alguns actos de violência isolados e em número cada vez menor. Não podemos mesmo deixar de nos surpreender ao ver a tranquilidade, a resignação e mesmo o secreto alívio com que os humanos concordaram com o seu próprio desaparecimento.
Rompemos o laço filial que nos ligava à humanidade e passámos a viver. Para que toda a gente possa ver, vivemos felizes. O que era inultrapassável para os homens, as forças negativas do egoísmo, da crueldade e da cólera, já não existe para nós. Pode dizer-se que vivemos uma vida completamente diferente. A ciência e a arte continuam a existir na nossa sociedade, mas a procura da Verdade e do Belo, menos estimulada pelo aguilhão da vaidade pessoal, adquiriu um carácter menos urgente. Para os humanos da antiga raça, o nosso mundo parece o paraíso. Por vezes acontece que cheguemos a qualificar-nos a nós próprios - de uma forma, pode dizer-se, um pouco brincalhona - como «deuses», essa palavra tão cheia de ecos para os humanos.

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