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Opinião de Leitura
As 3 Vidas As 3 Vidas

Autor: Tordo, João

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Num romance de mistério e suspense da primeira à última página, mais concretamente até à última palavra, o jovem autor deste romance «As 3 Vidas» oferece-nos uma narrativa viciante onde o narrador e personagem principal, rapaz modesto de poucas posses, vai trabalhar num negócio de contornos obscuros numa quinta do Alentejo, onde um grande espião e contra-espião, Milhouse Pascal, que passou por várias grandes guerras do século XX, dá consultas a outros usando métodos estranhos e de resultados imprevisíveis. Apaixonando-se pela sua neta, Camila, entra em desespero quando esta desaparece após uma viagem a Nova Iorque. Numa investigação em companhia do seu avô já em estado de saúde muito debilitado, a pouco e pouco se vai desenrolando o novelo dos mistérios que envolvem toda aquela família, levando-o à desgraça total e a uma posterior reabilitação lenta e penosa, tal como o próprio narra logo no princípio do livro, como isco que atrai o leitor e o prende completamente ao romance tal a expectativa criada e os véus subtilmente abertos mas nunca completamente até ao final do livro.

Entre histórias de espiões e de funambulismo (andar em cima de uma corda bamba), a busca de um ideal contra tudo e contra todos por parte de Camila, o desastre das torres gémeas em 2001 é um dos pontos-chave do romance e que vai permitir que todo o novelo se desembarace fazendo o narrador voltar a uma vida normal e monótona, contraponto de uma ilusão que alimentou e que quase concretizou. As suas 3 vidas: ilusão, penitência e de volta à realidade, são narradas com uma mestria que deixa a atmosfera interior e exterior do narrador completamente impregnadas no coração e intelecto do leitor, tornando este romance um marco na vida do leitor difícil de esquecer.

Comentários

Capítulos do Livro:

*Primeira Parte
Um Início
Artur e o Contrato
A Quinta do Tempo
Os Ficheiros
Camila, Gustavo e Nina
O Primeiro Encontro
O Corcunda, um Convite Inesperado
Uma Noite Fora da Quinta
Novembro
Um Citroen na Valeta
O Rapaz que Nunca Cresceu
Dois e Dois são Cinco
Assistente de Funâmbulo
O Primeiro Incidente
Um Ataque em Lisboa
A Adega
O Pequeno Irlandês
As Suspeitas
Castigo e Crime
O Enterro
A Partida
Lisboa Revisitada
A Experiência
A Viagem
Nova Iorque, Nova Iorque
Comunistas e Fascistas
Mãos à Obra
Espiões
A Liga da Justiça Judaica
Um Novo Começo
O Enigma Desvendado
Adriana
As Três Vidas

*Segunda Parte
Sete Anos
Verão Indiano
O Fantasma de Barclay Street
Pesadelos
A Rapariga do Gorro Vermelho
Esperança e Temor

*Terceira Parte
O Mundo em Ruínas
Um Doloroso Reencontro
Quid Pro Quo
Outros Caminhos
Nina

*Quarta Parte
O Leilão
Todos os Mistérios

Excerto

«Não, fica. Fica.» Tornei a sentar-me, relutante. «Acho que, depois do que fizeste, tens direito a estar connosco nos melhores momentos.»
Camila pareceu ficar um pouco mais tímida, ao escutar as palavras do avô. «Tenho receio de o deixar assim, avô. Tenho medo.»
«Medo de que eu morra?», perguntou Millhouse Pascal, a voz saindo-lhe do fundo da garganta.
«Por favor. Ninguém morre de uma fractura na bacia. Não diga essas coisas. Tenho medo de que fique sozinho. O Gustavo já se foi embora, a Nina também.»
«Tens medo da minha solidão, porque temes toda a espécie de solidão. Olha para mim. Tenho mais de setenta anos. A solidão é uma benesse, e não um tormento. Vivi mais vidas do que um batalhão de homens. Para além disso, enquanto tiver o Artur, nunca estarei sozinho.»
«Tem mais do que o Artur, agora», disse Camila, olhando para mim.
Millhouse Pascal também me olhou.
«Sim, por agora. Mas as pessoas jovens acabam por seguir as suas vidas. E o curso natural das coisas. Deposito, porém, grandes esperanças neste rapaz. É um rapaz especial.» Falavam de mim como se eu não estivesse ali. «E tu, estás pronta?»
«Para partir?»
«Para deixares tudo isto para trás.»                                                               
«Não fale assim. Virei visitá-lo sempre que possa.»
«Visitares, não visitares... É a mesma coisa, no fundo. Quando deixei este país, pouco mais velho do que tu és agora, ainda desconhecia o efeito que o mundo tem em nós. Partimos de um lugar achando que um dia voltaremos; vivemos tudo de coração aberto; e, quando damos por nós, somos incapazes de regressar.»
«O avô já regressou há muitos anos.»
«Regressei? Será mesmo verdade?»
«Está aqui, não está?»
«A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos feitos em retalhos.»

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