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Opinião de Leitura
A Educação Sentimental A Educação Sentimental

Autor: Flaubert, Gustave

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Numa França em clima de revolução de 1848, decorre a vida de um jovem ambicioso e cheio de ideais, que se apaixona por uma mulher casada e persegue esse amor ao longo de anos e anos, salpicado por outros amores menores com segundos interesses de acordo com as suas motivações pessoais e sociais de cada momento. A par do seu grande amigo de infância Charles Deslauriers, Frédéric Moreau segue as suas pegadas de constantes ilusões e desilusões, em todos os aspectos das suas existências. De impulsos sentimentais Frédéric, e de impulsos intelectuais Deslauriers, ambos vêem-se ultrapassados pela máquina devoradora que é a realidade, que igualmente reduz a pó a maioria das ambições dos revolucionários, não obstante a instauração efectiva da República após o período de revoluções. «A Educação Sentimental» é, além de um romance muito interessante pelo seu enredo e ilustrador da volatilidade do carácter humano dependendo das situações que se lhe deparam, um livro com uma escrita irrepreensível e recheada de factos históricos ao ponto de ter mais de duas centenas de referências que são detalhadas numa secção à parte.

Comentários

Nota do Editor:
«A Educação Sentimental» tem, na obra de Flaubert, uma importância comparável à de Madame Bovary.
Para Kafka, Flaubert era autor de um único romance e esse romance era «A Educação Sentimental». Em Novembro de 1912, ao enviar um exemplar da tradução alemã a Felice escreve: «É um livro que, durante muitos anos, me tocou de perto como só o fizeram dois ou três seres humanos. Em qualquer momento e lugar em que o abri provocou-me sobressaltos de medo e absorveu-me inteiramente e de todas as vezes senti-me como um filho espiritual deste escritor, ainda que pobre e desajeitado.»
Proust escolheu «A Educação Sentimental» como exemplo do melhor Flaubert, considerando que neste romance a «revolução» no seu estilo estava «acabada».

Excerto

Frédéric afirmava que a sua existência também tinha falhado.
Era muito jovem, no entanto. Porquê desesperar? E ela dava-lhe bons conselhos: «Trabalhe! Case-se!» Ele respondia com sorrisos amargos; porque, em vez de exprimir o verdadeiro motivo da sua mágoa, ele fingia outra, sublime, fazendo um pouco de «Antony», o maldito, linguagem, de resto, que não desnaturava completamente o seu pensamento.
A acção, para certos homens, é tanto mais impraticável quanto o desejo é mais forte. A falta de confiança em si próprios embaraça-os, o temor de desagradarem apavora-os; aliás, as afeições profundas parecem-se com as mulheres honestas; têm medo de ser descobertas, e passam a vida de cabeça baixa.
Embora conhecesse melhor a Senhora Arnoux (ou até por causa disse, talvez), ainda se sentia mais cobarde do que outrora. Todas as manhãs, jurava a si próprio que ia ser ousado. Um pudor invencível impedia-o; e não podia guiar-se por qualquer exemplo pois aquele era diferente dos outros. Pela força dos sonhos, tinha-a colocado acima da condição humana. Sentia-se, ao lado dela, menos importante na terra do que os fios de seda que se lhe escapavam da tesoura.

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