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Opinião de Leitura
Mágoas da Escola Mágoas da Escola

Autor: Pennac, Daniel

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

«Mágoas da Escola» é um livro que, baseando-se na experiência de vida do autor, primeiro como aluno cábula, e depois como bom professor, desmistifica os conceitos redutores de mau aluno e de aluno ideal, ilustrando, por pequenos episódios que mudaram a sua vida e de muitos dos seus alunos, como através de alguma dedicação e tratamento pessoal por parte do professor, caso a caso, muitas das situações desesperantes se transformam em casos de sucesso, em que um pouco de amor e compreensão podem operar verdadeiros milagres.

Criticando de forma serena muitos dos tabus à volta do sistema de ensino actual, Pennac, num estilo sedutor derivado porventura da sua carreira como escritor, seduz, convence e comove o leitor, abrindo-lhe os horizontes para uma melhor compreensão dos verdadeiros problemas que se devem combater, e pistas em como o fazer, sem falsas utopias ou megalomanias.

Comentários

Nota do Editor: Daniel Pennac aborda os problemas da escola e da educação desde um ponto de vista insólito - o ponto de vista do mau aluno. Pennac, que foi ele próprio um péssimo estudante, analisa a figura do cábula outorgando-lhe a nobreza que merece e restituindo-lhe a carga de angústia e dor que inevitavelmente o acompanha. Misturando recordações autobiográficas e reflexões acerca da pedagogia e das disfunções da instituição escolar, sobre a dor de ser um mau estudante e a sede de aprendizagem, sobre o sentimento de exclusão e o amor ao ensino, Daniel Pennac oferece-nos, com humor e ternura, uma brilhante e saborosa lição de inteligência. "Mágoas da Escola" é um livro único e irrepetível, que todos os pais e todos os professores não podem deixar de ler - e dar a ler.

Excerto

A ideia de que é possível ensinar sem dificuldade deve-se a uma representação etérea do aluno. A sabedoria pedagógica deveria representar-nos o cábula como um aluno tão normal quanto possível: o que justifica plenamente a função de professor uma vez que temos «tudo» a ensinar-lhe, a começar pela própria necessidade de aprender! Ora, não é o que se passa. Desde a noite dos tempos escolares, o aluno considerado normal é o aluno que oferece menos resistência ao ensino, o que não duvida da nossa sabedoria e não põe à prova a nossa competência, o aluno antecipadamente conquistado, dotado de uma compreensão imediata, susceptível de nos poupar a procura das vias de acesso à sua capacidade de compreender, um aluno naturalmente preocupado com a necessidade de aprender, que deixa de ser um aluno turbulento ou um adolescente com problemas durante a nossa hora de aula, um aluno convencido desde o berço de que deve controlar os desejos e as emoções pelo exercício da razão se não quiser viver numa selva de predadores, um aluno ciente de que a vida intelectual é uma fonte de prazeres que pode ser variada até ao infinito, requintada ao extremo, enquanto a maior parte dos nossos restantes prazeres está votada à monotonia da repetição ou ao desgaste do corpo, em suma, um aluno convicto de que o saber é a única solução: solução para a escravatura em que nos manteria a ignorância e consolação surpreendente para a nossa ontológica solidão.

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