Publicidade

Opinião de Leitura
As Confissões de Félix Krull As Confissões de Félix Krull

Autor: Mann, Thomas

Leitor: Paulo Neves da Silva

Opinião

Um jovem aristocrata, ao atingir a sua maioridade, vê-se caído na pobreza em virtude da má gestão do negócio de família por parte do seu pai. Muito pragmático e decidido, decide-se «fazer à vida», indo trabalhar para um Hotel onde rápidamente os seus dotes espirituais e culturais, de elevado calibre e frutos de uma grande capacidade de introspecção e reflexão que cultivou desde criança, são apreciados por toda a gente, auspiciando-lhe um bom futuro. Porém, sendo Félix extremamente ambicioso e sonhador, embarca na aventura de se colocar na pele de outro homem a pedido deste, iniciando uma viagem pelo mundo sob a identidade de um Marquês mais todas as mordomias associadas. Com a primeira paragem em Lisboa, a estadia prolonga-se nesta cidade que o deslumbra, por via de uma paixão brutal por uma mulher estranha que abomina qualquer tipo de amor...

Fruto de uma personalidade algo esquizofrénica, Félix Krull representa o homem para o qual todos os meios são aceitáveis para atingir os fins em vista, solitário a roçar o eremita mas simultaneamente mestre do convívio, verdadeiro camaleão cujo único impedimento a uma ascensão mais rápida na sociedade se deve a alguma falta de experiência derivada da sua juventude, mas cujo espírito, acusando a bagagem de uma pessoa muito mais velha, dada a sabedoria que emana, o leva a ultrapassar com maior ou menor dificuldade todos os obstáculos que se lhe deparam.

Comentários

Nota do Editor: «As Confissões de Félix Krull, embora concebido antes da I Guerra Mundial, é a sua última obra. Neste romance, parte do qual decorre em Lisboa, Thomas Mann atinge um dos pontos culminantes da sua criação com o personagem Krull, um imaginativo e amável impostor. Este livro conta a carreira do charmoso e boémio "vigarista" Felix Krull - um homem desprendido dos preceitos morais que governam a conduta das pessoas vulgares.»

Excerto

Das coisas delicadas e fluídas, convém falar com delicadeza e fluidez; por isso formularei aqui, com precaução, uma observação acessória. Em resumo: a felicidade só se pode encontrar nos pólos extremos das relações humanas — onde as palavras não existem ainda ou onde já não existem — no olhar e nos abraços. Só lá se situam o incondicional, a liberdade, o mistério e o entusiasmo irreprimível. Tudo o que existe no intervalo, como contacto e relações sociais, é tíbio e fraco, determinado, condicionado e limitado pelo formalismo e pela tradição burguesa. A palavra, aí torna-se senhora — a palavra, essa intermediária baça e fria primeiro produto duma civilização domesticada e moderada, e tão totalmente estranha à ardente e muda esfera da natureza que cada vocábulo é, de qualquer maneira, uma frase por si e em si.
Digo isto eu, que, contudo, tento modelar a história da minha vida e ponho todo o cuidado possível em dar-lhe uma expressão literária. Entretanto, o meu elemento não é a comunicação verbal, porque o que me interessa verdadeiramente se afasta dela. Sinto-me ligado, de preferência, às regiões mais extremas e silenciosas das relações humanas. Em primeiro lugar, àquelas em que a estranheza e a ausência de qualquer relação burguesa mantêm ainda um estado primitivo, onde os olhares se casam irresponsáveis, numa sonhadora impudicícia. Por fim, a outra esfera, aquela em que a união, a intimidade, levadas até ao paroxismo, restabelecem, da maneira mais perfeita, esse estado mudo e primitivo.

Publicidade

Facebook
Publicidade

Inspirações

Lidar com os Outros

Publicidade

© Copyright 2003-2021 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE