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Opinião de Leitura
O Paraíso na outra esquina O Paraíso na outra esquina

Autor: Llosa, Mário Vargas

Leitor: Isabel Reis

Opinião

Vargas Llosa adentra-se, neste seu último romance, pelo século XIX das utopias; as utopias políticas, artísticas e religiosas de certa forma. Procura-se o paraíso na Terra, a felicidade humana, no fim de contas. Os protagonistas da história são a revolucionária Flora Tristán e o pintor Paul Gauguin. Os dois nunca se cruzam, e vamos conhecendo o percurso de ambos em histórias que se vão intercalando. Em comum têm o sangue, Flora Tristán é avó de Gauguin, e a busca quase insana de um ideal de Paraíso, que nem um nem outro chegam a alcançar. Trata-se quase de dois romances autónomos.

Do ponto de vista histórico é um livro interessante. Com Flora percorremos os lugares e os ideários das utopias sant-simoniana, fourierista e outras que, no século XIX se multiplicaram na Europa da industrialização. A opressão das mulheres e dos operários são questões recorrentes na luta de Flora Tristán, uma progressista corajosa que renunciou a ter um papel passivo, e a ser subjugada num casamento que rimava com escravidão. Por isso pagou um preço muito caro: a separação dos seus filhos, a perseguição pelo marido, a rejeição da sua mãe e da família e a morte precoce.

Com Paul Gauguin vivemos as tentativas desesperadas do pintor para conseguir alcançar a felicidade longe da civilização e dos seus valores materiais. Convencido que nos lugares mais preservados da Terra iria encontrar a paz e a felicidade, e a tal energia criativa vital, Gauguin abandona uma Europa que considera decadente e segue até aos paraísos terrestres da Polinésia Francesa e das Ilhas Marquesas. Mas também aí a civilização ocidental já tinha começado a penetrar.

Em termos literários não considero que seja um grande romance de Vargas Llosa. Sem dúvida a “Festa do Chibo”, “Lituma dos Andes” ou mesmo o “Cadernos de D. Rigoberto” são-lhe superiores. Mais bem trabalhados do ponto de vista estilístico e narrativo. Prendem mais, são mais intensos. Este “O Paraíso...” parece-me uma boa ideia mal conseguida.

Não gostei particularmente do tom do narrador, que oscila da narração na terceira pessoa para um papel de quase voz da consciência das personagens. O livro está recheado de perguntas lançadas às personagens por este narrador complacente e paternalista. Este alternar de registos não facilita a leitura e não nos dá espaço para as nossas interpretações. A cada instante o estado de espírito, as dúvidas e inquietações das personagens são-nos oferecidas por essas perguntas do género “Ficaste triste não foi Florita?” ou “Não era ainda esse o quadro que querias pintar Koke, pois não?”. Convenhamos que é irritante, pelo menos para mim.

Ainda assim, um livro a ler, mas longe de ser uma obra maior de Vargas Llosa.

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