Pensatempos

por: Mia Couto
Moçambique
n. 5 Jul 1955
Escritor/Biólogo

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41 Citações

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Há coisas que são resolvidas por governos. Há coisas que nenhum governo é capaz de resolver. Seremos nós, com o tempo que nos for concedido, que resolveremos. Por via da nossa cidadania em construção.
Nação e etnia podem viver sem conflito. Como aconteceu em inúmeros momentos históricos. Mas são também oportunidade para demagogos e ambiciosos promoverem os seus interesses pessoais ou de grupo.
Um homem não é uma margem que apenas existe de um ou de outro lado. Um homem é uma ponte ligando as diversas margens.
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O coração de um homem ou de uma mulher não obedece a imperativos de consciência. Ninguém namora por dever.
Temos que ter cautela sobre a facilidade com que invadimos a alma dos outros. Quem nos autoriza a falar com tanta ligeireza dos outros? Nenhuma cidadania me pode dar esse direito de falar em público sobre a intimidade de seja quem for. Podemos discutir casos gerais, princípios, ideias, mas não temos o direito de trazer para o jornal os assuntos da alma e do coração de qualquer cidadão.
Muitos dos debates que atravessam hoje o nosso espaço público são curiosos. Por vezes eles resvalam para a agressão. Deixamos de discutir ideias para atacar pessoas. A necessidade de ter razão, de ganhar a todo o custo, atropela os deveres do civismo que é uma das razões de estarmos aqui. Os debates deveriam servir para criarmos colectivamente conceitos produtivos, criarmos ideias que sejam construtoras.
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Nós criámos um sistema que gera dificuldades para os mais pequenos assuntos. A dificuldade cria uma oportunidade para expedientes, para oportunismos diversos. Este sistema não é exclusivo de Moçambique. É comum em todo o mundo. Mas este sistema nos faz sentir estranhos, pequenos e deslocados.
Podemos ser diversas coisas. O erro é quando queremos ser apenas uma. O erro é quando queremos negar que somos diversas coisas ao mesmo tempo.
As palavras e os conceitos são vivos, escapam escorregadios como peixes entre as mãos do pensamento. E como peixes movem-se ao longo do rio da História. Há quem pense que pode pescar e congelar conceitos. Essa pessoa será quanto muito um colecionador de ideias mortas.
Ãfrica vive numa situação quase única: as gerações vivas são contemporâneas da construção dos alicerces das nações. O que é o mesmo que dizer os alicerces das suas próprias identidades. É como se tudo se passasse no presente, como se todas as nações se entrecruzassem no mesmo texto. Cada nação é assunto de todos, uma inadiável urgência a que ninguém se pode alhear. Todos são cúmplices dessa infância, todos deixam marcas num retrato que está em gestação.
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