Não considero ajuizado o homem que, no leito da agonia, maldiz cobardemente da sua sorte. De um mal faz dois: tortura-se e nem por isso deixa de morrer.
Quando vejo morrer um homem honesto e viverem tantos celerados, sinto bem enfaticamente a força desta passagem dos salmos: «Deus não quer a morte do pecador».
Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinteressada delas. Eu sou ao contrário: o tempo passa e a afeição vai crescendo, morrendo apenas quando a ingratidão e a maldade a fizerem morrer.
Procuro renascer todos os dias. Não concordo em morrer vivo. Sou um rebelde de paletó e gravata, grão que teima em não virar massa, pássaro que persiste no canto dentro da gaiola dos horários.
Nas duas grandes horas da Vida — a nascer e a morrer — o homem bebe sózinho o seu cálix. No trajecto entre os dois pólos, acobardado pela maior consciência da espessura da bruma, arregimenta amigos e companheiros. Mas a sua unidade é ele. Mesmo que consiga ter à volta a maior multidão — vai só.
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