A condescendência, com o que tinha de indiferença e de mentira, era a grande inimiga da intimidade. A verdade podia fazer muita mossa. Estava longe de ser um valor absoluto. Mas, se ruía a intimidade, restava o quê? Sustinha-se de pé o quê? Sustinha-nos de pé o quê?
Às vezes ocorria-lhe aquele poema de Pessoa em que um homem se punha à janela da sua meninice apenas para descobrir que nem ele era já o mesmo homem, nem a janela a mesma janela. A infância, dizia a si próprio, havia-se tornado um bem de demasiado valor. Não podia dar-se ao luxo de concluir que também ela era mentira.
Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava, só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.
Identificar o que nos limita e enfrentar a limitação são as únicas premissas capazes de nos conduzir à salvação e são siamesas, pois quem identifica e não enfrenta viverá eternamente assombrado pelo que podia ter feito e nunca fez.
Não faz muito sentido que percamos o nosso tempo todo a tentar conquistar o que não depende de nós. Será uma futilidade e uma perda de energia e tempo que podia e devia ser utilizado naquilo que é essencial e está ao alcance da nossa mão.
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