Tanta gente me pergunta porque é que eu estou sempre bem disposto que me decidi a responder. O segredo é que eu também estou sempre mal disposto. Faço é por não estar.
Os portugueses estão sempre mal dispostos. Dispõem-se mal. Indispõem-se muito. Não percebem que a vida é uma coisa complicada, com muito recheio, só parcialmente compreensível, sujeita tanto às leis da ciência, como ao acaso. A vida é muito confusa. É chata, linda, irregular, boa, injusta, curta de mais e comprida em demasia.
A confusão define a nossa vida, o nosso dia a dia, a nossa noite a noite. Nunca se sabe onde se vai, em que carro é que se vai chegar a casa, quem vai pagar as bebidas, como é que vai ser para acordar amanhã de manhã. Por muito que se combine, que se planeie, que se organize, é sempre a grande confusão.
Não há solidão mais bonita que a boa companhia de quem se quer bem. Essa é uma companhia aérea correndo os ceús, descendo em direcção a nós, e depois novamente levantada nos braços, nunca realmente aterrando. Essa é a companhia que se forma, quase uma escritura de amor que se assina, quando duas solidões escolhidas se encontram. «É sempre de duas solidões boas que nasce a melhor das companhias».
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até à hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Ninguém escreve um diário para dizer quem é. Por outras palavras, um diário é um romance com uma só personagem. Por outras palavras ainda, e finais, a questão central sempre suscitada por este tipo de escritos é, assim creio, a da sinceridade.
A pátria, Brasil, Portugal, qualquer, é só de alguns, nunca de todos, e os povos servem os donos dela crendo que a servem a ela. No longo e sempre acrescentando rol das alienações, esta é, provavelmente, a maior.
Quem nos quer, quer-nos «in toto», mas satisfaz-se com pouco. Não se pode dar mais. Um bocadinho tem que parecer bastante. E se dermos tudo, tem de parecer pouco. Ela nunca pode saber. Se não perdemo-la. É preciso haver sempre uma parte que parece inacessível.
Que procuram afinal as raparigas deste país? Rapazes ideais. Com menos do que isso ficam maçadas. Podem aturar rapazes não-ideais, namorá-los, casá-los e até amá-los, mas fica-lhes sempre atravessado aquele príncipe encantado que não veio. E sonham secretamente que ainda está para chegar, só um bocadinho atrasado.
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