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Elena Ferrante

Itália

Escritora
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Fim

Ouço as minhas amigas e os meus amigos dizerem cada vez mais vezes: o que me faz medo não é a morte, mas a doença. E também eu me sirvo da mesma fórmula. Quando tento desenvolvê-la para a tornar um pouco mais clara, descubro que para mim significa: o que me aterra não é a ideia de deixar de existir, mas os males induzidos pelos tratamentos, pela oscilação entre a ilusão da cura e o desengano, pela agonia. É como se confessasse que aquilo que realmente me preocupa é o fim da boa saúde com tudo o que isso comporta: debilitação, inactividade progressiva, redução do prazer à simples constatação de que continuo a ser «eu» e de que, por agora, continuo a viver. A ideia da morte propriamente dita, por conseguinte, parece-me cada vez mais diluída. O que em contrapartida me aterroriza é o fim do pleno gozo da vida. Tal depende do facto de, no que me diz respeito, a crença em qualquer além se ter tornado, de há muito, bastante fraca. Lembro-me agora de quando a minha avó morreu. Era a pessoa mais activa de nossa casa, mas depois passou anos paralisada por um acidente cerebral. Deixava-se ficar a um canto da cozinha e nem eu — que teria no máximo dez anos — sentia o seu sofrimento e a sua humilhação nem ela mos mostrava com os olhos sequer como qualquer coisa de insuportável. Depois veio de repente a morte que eu vivi dolorosamente no quadro religioso em que fora criada. A morte significou para mim que ela fora para o Céu deixando um corpo reduzido a uma coisa rígida e gélida. Esse seu morrer teve traços extremamente precisos, senti-o ao mesmo tempo como uma imobilidade aterradora e como um misterioso movimento. A minha avó acabara partindo para um além. Mais tarde qualquer forma de crença religiosa passou a parecer-me absurda e a morte como que ficou mutilada. A imobilidade manteve-se, o movimento extinguiu-se. O corpo morto transformou-se simplesmente no sinal, num determinado indivíduo, do fim da vida. Hoje eu já não diria que partiu. Perdi o sentimento da passagem, nada voa para o além, não se vai para outro mundo, não se regressa, não se ressurge. A morte é o último ponto do segmento de vida que por acaso nos tocou. É por isso que a minha atenção, como a de tantos outros, se concentrou não no morrer, mas no viver. Desejamo-nos que a vida seja o mais longa possível, mas que termine quando se deteriora de tal maneira que nenhum tratamento possa já torná-la suportável. Não sei se é melhor esta crença da idade adulta ou aquela com que vivi até à adolescência. As crenças não são boas nem más, servem somente para dar uma ordem à desordem das nossas angústias.

Elena Ferrante, in 'A Invenção Ocasional'




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