Aqui, diante de mim,/ Eu, pecador, me confesso/ De ser assim como sou./ Me confesso o bom e o mau/ Que vão ao leme da nau/ Nesta deriva em que vou./ / Me confesso/ Possesso/ De virtudes teologais,/ ...
Natal divino ao rés-do-chão humano,/ Sem um anjo a cantar a cada ouvido./ Encolhido/ À lareira,/ Ao que pergunto/ Respondo/ Com as achas que vou pondo/ Na fogueira./ / O mito apenas velado/ Como u...
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,/ E que nele posso navegar sem rumo,/ Não respondas/ Às urgentes perguntas/ Que te fiz./ Deixa-me ser feliz/ Assim,/ Já tão longe de ti, como de mim./ / ...
Calado ao pé de ti, depois de tudo,/ Justificado/ Como o instinto mandou,/ Ouço, nesta mudez,/ A força que te dobrou,/ Serena, dizer quem és/ E quem sou./ / Miguel Torga, in 'Diário (1939)'
Nada!/ Horas e horas neste ponto morto/ Onde caiu agora a minha vida.../ Nem um desejo, ao menos!/ Só instintos pequenos:/ Apetite de cama e de comida!/ / Nem sequer ler um livro/ Ou conversar comig...
Nada me dês nem peças./ E não meças/ O que podias dar e receber./ Fecha a própria riqueza do teu ser./ / Um de nós era a mais/ À lírica janela.../ Olharam-se os zagais,/ Mas não houve novela...
Era uma vez, lá na Judeia, um rei./ Feio bicho, de resto:/ Uma cara de burro sem cabresto/ E duas grandes tranças./ A gente olhava, reparava, e via/ Que naquela figura não havia/ Olhos de quem gos...
Meu coração quebrou./ Era um cedro perfeito;/ Mas o vento da vida levantou,/ E aquele prumo do céu caiu direito./ / Nos bons tempos felizes/ Em que ele batia, erguido,/ Desde a rama às raízes/ E...
O que isto é, viver!/ Abrir os olhos, ver,/ E ser o nevoeiro que se vê!/ Nevoeiro ao nascer,/ Nevoeiro ao morrer,/ E um destino na mão que se não lê.../ / Miguel Torga, in 'Diário (1942)'
Que renda fez a tarde no jardim,/ Que há cedros que parecem de enxoval?/ Como é difícil ver o natural/ Quando a hora não quer!/ Ah! não digas que não ao que os teus olhos/ Colham nos dias de ir...
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