A Solidão do Artista
Diz-se à s vezes de certas pessoas, e para isso se reprovar, que têm dupla personalidade. Mas dupla ou múltipla têm-na normalmente os artistas. Ela é pelo menos a do convÃvio exterior e a do seu intimismo. Se trazem esta para a rua, são quase sempre insuportáveis. Só se suporta o que é de um profundo interesse, quando isso é rentável. Imagino que o capitalista tenha na sua vida Ãntima um mundo de cifrões. Se o cifrão vier à rua, tem ainda cotação. Mas o artista? Mesmo a coisa minúscula da sua pequena vaidade é irritante. Um polÃtico pode blasonar pimponice, que tem adeptos a aplaudir. O artista é um condenado, com o ferrete da ignomÃnia. O seu dever social é ocultar a degradação ou então marginalizar-se. Para efeitos cÃvicos ou mundanos, só depois de bem morto. A solidão é assim o seu destino. Aà sofre ou tem alegrias, aà obedece a um estranho mandato que lhe passaram na eternidade. Discreto, envergonhado, todo o seu esforço, no domÃnio das relações, é esconder a sua mancha. Nenhum povo existe senão pelo seu espÃrito. Somos o que somos pelo que foi excepção dos que nos precederam. Mas o dia a dia não é espiritual, e é esse que tem de se viver. Há uma lei injusta que condenou o artista como a outros condenou com uma deficiência fÃsica ou a serem tarados. Mas a um tarado (interrompido).
VergÃlio Ferreira, in 'Conta-Corrente 3'