Na França
Na França, o caminho foi todo feito de comboio. A Adelaide arregalava os olhos quando passavam por vilas, grandes plantações, milheirais. Ainda mal tinha assistido a duas ou três estações desfocadas e já era amiga inseparável da mulher do norte que conhecera na véspera e que viajava ao seu lado. Chamava-se Libânia e ia ter com o marido. À Adelaide quis saber tudo.
Tinha casado por procuração. A Libânia contou-lhe que foi uma festa bonita com rojões e mostrou-lhe um retrato, vestida de noiva, ao lado de um homem bem-pos-to, de fato. Era o padrinho, chamava-se um nome que a Adelaide não memorizou, Alfredo ou Alberto, e, durante a cerimónia, fez as vezes do noivo que, a essa hora, estava empoleirado na grua de uma obra francesa. A Libânia conhecia esses detalhes porque, no sábado do matrimónio, ao serão, noite de núpcias, fizeram-lhe a surpresa de a levar à mercearia, onde falou ao telefone com o marido. O aparelho estava pousado sobre o balcão, ao lado de uma pilha de folhas de papel pardo e, durante a conversa, os pais e o homem da mercearia ficaram a olhar para ela, enquanto gritava para o telefone e enquanto tentava ouvir os gritos que o marido dava do outro lado, na França. Depois, ao longo dos meses, não estiveram mais à vontade na correspondência, porque a Libânia não sabia ler e tinha de ditar as palavras a esse mesmo homem da mercearia que, muitas vezes, lhe sugeria formas mais polidas de se exprimir. Mas a Libânia era descarada e quis contar à Adelaide intimidades de quando o marido ainda era namorado e vizinho. A Adelaide interrompeu-a porque nunca tinha ouvido falar de casamentos por procuração e estava mais interessada em conhecer essa lei. A Libânia ex-plicou-lhe o pouco que ela própria entendia de papéis, mas falou-lhe com detalhe da bastante falta que faz um noivo no dia do casamento.
Se puderes, espera por estarem juntos.
Demasiado tarde. A Adelaide só já era capaz de pensar em casar-se com o IlÃdio por procuração. Manteve essa ideia fixa quase até à chegada a Paris. Entremeou-a apenas com o espanto que lhe causavam certas paisagens. A França era um belo paÃs e a Adelaide estava esperançada.
José LuÃs Peixoto, in 'Livro'