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José Saramago

Portugal
16 Nov 1922 // 18 Jun 2010
Escritor [Nobel 1998]

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O Melhor Amigo do Homem

É o cão. Assim mo disseram nos tempos da velha instrução primária oficial, com aulas da parte da manhã e feriado à quinta-feira. (Havia pouco que ensinar nessas pré-históricas eras: a pacífica análise gramatical, os bons exemplos da História Pátria e os volteios dos quebrados e decimais.) O professor, Vairinho de seu nome, era um homem alticalvo, grave quanto bastava para acentuar a respeitabilidade da sua posição de diretor, mas, ainda assim, nosso amigo e nada exagerado na disciplina. Fazia, contudo, grande empenho em pontos de formação moral, e o cão era o seu grande tema.
Uma vez por semana, pelo menos, havia preleção sentimental: famosas proezas da gente canina, «pilotos» abandonados que voltavam a casa depois de vencerem centenas de quilómetros, «guadianas» que se deitavam à água para salvar meninos de quem («pagai o mal com o bem») haviam recebido maus-tratos. Enfim, coisas de 1930.

Não ajudaram muito as lições do professor. Os cães que conheci de perto sempre mostraram uma espécie de vingativa animadversão pela minha tímida pessoa. Ou porque farejassem o susto ou porque os ofendesse o atrevimento com que eu procurava disfarçá-lo - sempre houve entre mim e os cães, quando não guerra aberta, pelo menos um estado de paz desconfiada.
Recordo com despeito, por exemplo, aquele rafeiro castanho que vinha a trote, arrastando a corrente partida, pela quelha estreita e sem resguardos onde eu passeava a minha distração e a minha confiança. Provavelmente, fiz qualquer gesto suspeito («o cão só ataca se for provocado ou julgar que o dono e a sua propriedade estão em perigo») ou mostrei medo («nunca se deve fugir de um cão: é um animal nobre que não ataca pelas costas»): o certo é que, à passagem, sem desafio da minha parte, o rafeirola deitou-me os dentes e, depois de me dar um estorcegão na canela, seguiu o seu caminho, a dar ao rabo, de pura alegria.
Ficou-me este caso de aviso, tão certo é que não há melhor mestre que a experiência. Uns anos mais tarde, andava eu (sempre confiante e distraído) a vaguear pelo campo, lá na lezíria onde nasci, quando de repente dou de cara com um cão. Era um castro-laboreiro de má fama que não consentia cão nem gato no seu feudo, que os partia pela espinha se podia filá-los - e que nunca ouvira as lições do professor Vairinho.

Quis o acaso que eu tivesse comigo uma cana forte e comprida. Quando a assombração me saltou à frente, estendi a cana, com a ponta a um palmo do focinho dele, e ali ficámos durante talvez meia hora, o dragão às upas, fintando e rosnando, fingindo-se indiferente para logo voltar à carga, eu a suar de medo, com a voz enrodilhada na garganta, longe de qualquer socorro, abandonado ao negro destino.
Escapei. Às tantas, o bicho cansou-se de uma luta assim, sem proveito nem glória. Depois de me fitar um pouco de largo, com atenção e minúcia, lá lhe terá parecido que eu não merecia as suas cóleras. Fez meia-volta e desapareceu num tropicar curto e desdenhoso, sem olhar para trás. Eu fui-me afastando devagar, às arrecuas, ainda a tremer, até que cheguei a casa da minha tia Elvira, a qual tia, ouvinte benévola mas cética, não acreditou na história. (Era tal a fama do safado, que tê-lo vencido com uma cana pareceu a toda a gente uma galga sem vergonha.)

Desde então deixei de acreditar na bondade dos cães, se alguma vez para aí me inclinei. Perdoo ao professor Vairinho as ilusões que quis fazer nascer em nós: era tudo pela boa causa. Mas sempre gostaria de saber que lições seriam as suas hoje, se visse os seus amados exemplos ali bem tratados, de pelo luzidio, pata forte e dente afiado, com uma profunda ciência da anatomia humana e dos modos adequados e mais eficientes de danificá-la. Meu querido, bom e lembrado professor Vairinho, que tanto gostava de explicar os complementos-circunstanciais-de--lugar-onde, sem saber em que trabalhos nos ia meter.

José Saramado, in 'A Bagagem do Viajante'




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