Opinião de Leitura
A Convidada

Autor: Beauvoir, Simone de

Leitor:

Excerto

[...]
- A única novidade que me interessa é o nosso futuro comum, disse Françoise. O que é que queres? Sou feliz assim! O resto é contigo.
- Oh! Não te censuro, disse Pierre; pelo contrário, acho-te muito mais pura do que eu. Não há nada que soe a falso na tua vida.
- É porque tu, pelo teu lado, não dás tanta importância à tua vida em si própria. É o teu trabalho que conta, disse Françoise.
- É verdade, disse Pierre; mordeu uma unha com um ar perplexo. Para mim, exceptuadas as minhas relações contigo, tudo é frivolidade e desperdício.
Continuava a trincar a mão; só ficaria satisfeito quando o sangue aparecesse.
- Mas quando tiver liquidado a Canzetti, estará tudo acabado.
- Isso é o que tu dizes, disse Françoise.
- Hei-de prová-lo, disse Pierre.
- Não acho que a Canzetti seja uma rapariga interessada, disse Françoise.
- Não; não é tanto para ter papéis; só que me toma por um grande homem e imagina que o génio lhe vai subir do sexo para o cérebro.
- Já se tem visto, disse Françoise, rindo.
- Esse género de histórias deixou de me divertir, disse Pierre. Ainda se eu fosse um grande sensual, mas nem sequer essa desculpa tenho. Olhou para Françoise com um ar confuso. A verdade é que gosto muito dos começos. Não consegues perceber isso?
- Talvez, disse Françoise, mas a mim não me interessa uma aventura sem amanhã.
- Não? Perguntou Pierre.
- Não, disse ela, é mais forte do que eu: sou uma mulher fiel.
- Não se pode falar de fidelidade ou de infidelidade entre nós, disse Pierre; puxou Françoise para si. Tu e eu somos um só; bem sabes que é verdade, que não é possível definir-se um de nós sem o outro.
[...]

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