Opinião
No livro "A morte do palhaço e o mistério da árvore", Raul Brandão constrói conversas com e sobre o palhaço. Cada personagem representa algo na sociedade: o palhaço representa o sonho. Há também o Pita, o homem que se entregou à vida, o doido, o anarquista, a patroa e o Gregório (antigo chefe de repartição). Todos eles reunidos na casa de hóspedes da D. Felicidade.
Dialogam entre si e Raul Brandão por entre diálogos expressa a sua opinião sobre três estados em que o Homem pode viver: O primeiro será viver pelo sonho; o segundo será viver entre o sonho e a vida térrea; o terceiro modo de vida é a entrega à vida térrea e mundana.
Cada personagem deste livro exemplifica esses estados de vida e Raul Brandão vai criticando esses estados nos seus diálogos e nas estórias das personagens.
Raul Brandão escreveu sobre a existência humana, e neste livro continua a fazê-lo, numa espécie de autobiografia: (ver citação em baixo). É assim um autor que viveu através do nada que se encontra nos livros, palavras e mais palavras, que apenas alimentam o vazio onde o autor mergulhou: no abismo do negativismo.
Excerto
É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de onde provém. Parece que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que ignoro - e que nunca chegará. Que nunca chegará, ouves bem? ... Vivo alheado, o cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e me enche. Se saio do sonho, não sei viver. Sobressalto-me com o menor ruído imprevisto: a porta que se fecha é para mim uma angústia. Compreendes isto? Antes a catástrofe que espero caísse sobre mim e me estatelasse no solo, do que este terror contínuo, a inquietação do que é vago, o aflitivo do nada...