Opinião
Um romance comovente sobre a velhice e a redescoberta do amor puro e desinteressado, poder-se-ia dizer de uma forma redutora, acerca deste excelente curto romance de Gabriel García Marquez. Na realidade, é um romance sobre o facto de que, por mais que uma pessoa viva, pode ser sempre surpreendida por novas vivências que, por mais madura que a pessoa se sinta, a faz voltar (?) a ter sentimentos, loucuras, e comportamentos imprevisíveis, pelo que, apesar de todas as rotinas, agruras e desilusões, a vida proporciona continuamente experiências inesquecíveis e marcantes onde e quando menos se espera, combinando a imprevisibilidade do destino com a magia do nosso espírito, que tantas vezes se enclausura na sua pretensa e tão enganadora experiência de vida e monotoniza a existência.
O personagem principal e simultaneamente narrador, decide, no dia de aniversário dos seus 90 anos, ir para a cama com uma virgem. Para tal, fala com a sua amiga de longa data, que gere um bordel do qual ele é cliente assíduo há imensos anos, com um registo de mais de 500 mulheres diferentes (perdeu a conta aos 40 anos) com quem ele já teve relações. O que parecia ser algo natural, dado o que ele relata sobre a sua vida, dá início a uma fascinante e original história de amor, que lança um novo fôlego na vida do narrador, que, em sucessivas visitas à sua amada, no bordel, adia sucessivamente o suposto acto principal, numa atmosfera de magia que prende e comove o leitor, em sucessivos episódios que parecem dar um rumo drástico à história, seguidos de sucessivos desenlaces que surpreendem pelo revelar daquilo que de melhor há e define o ser humano no seu esplendor.
É uma história bonita, no verdadeiro sentido do termo, sem cair na suposta trivialidade dos romances de amor. Muito mais que um romance de amor (que é de facto a trave mestra do romance), os sucessivos acontecimentos na vida do dia a dia do narrador, com constantes lembranças da sua vida em outras idades, e a sua interacção com os seus contemporâneos em que muitos são já netos dos que ele conheceu, mostra perspectivas assaz interessantes sobre como não há uma verdadeira evolução na sociedade, impregnada dos seus preconceitos e códigos sociais caducos, e os seus vícios eternos, traduzindo o que de melhor e pior há no ser humano, continuamente renovado pelas novas gerações que pensam ser mais evoluídos que os seus antepassados, sem terem feito nada por isso.
A pretensa sabedoria de vida da velhice encontra-se bem presente no narrador, que tem um olhar sagaz sobre a sociedade e sobre a vida em si, mas ensina-nos sobretudo que a frescura de espírito não é propriedade dos jovens, e que a verdadeira sabedoria consiste em estar aberto a todas as novas oportunidades que a vida continuamente nos dá, sem que isso signifique a rejeição daquilo que já aprendemos - a coerência é dos piores inimigos da sabedoria.