O último romance, já postumamente publicado, de Augusto Abelaira, gira em torno deste conceito de explanação do sentido da vida. Que os acasos, afinal, serão mais do que simples coincidências: serão o efeito do todo movimento cósmico, desde o princípio, e de acordo com as referidas combinações.
É um livro sobre um homem, um escritor, ou intelectual, divorciado, que decide anotar num caderno, como se de um diário se tratasse, relatos das suas vivências e ilações tiradas daí. À semelhança de outras obras anteriores, como a que antecede, Outrora Agora (Presença, 1996), este Nem Só Mas Também é um exercício sobre o amor e a relação emocional entre o homem e a mulher. Da geração que transitou dos valores morais conservadores para os valores da emancipação e do individualismo. Ao mesmo tempo, analisa a actualidade e faz a sua crítica, embora de uma forma despretensiosa e sem fazer juízos de valor.
A trama desenvolve-se a partir do momento em que o narrador, na mesma esplanada onde costuma trabalhar numa tradução, ou simplesmente ler um jornal ou um livro, se dá conta da presença e da conversa de um casal de meia idade, que ali se encontra, na perspectiva e imaginação do narrador, como dois amantes, clandestinos. A curiosidade que o leva a regressar ao mesmo local, para observar aquele homem e aquela mulher, acaba por implicá-lo, também, numa série de coincidências, em que encontra a sua ex-mulher, acompanhada de uma amiga que não lhe parece de todo estranha. E o envolvimento com esta personagem (Adriana), julga ser o culminar de acontecimentos do passado, de um primeiro encontro fortuito. O narrador vai estabelecer a ponte entre esse passado e o presente e aborda todo o tempo intermédio como canalizador do que ele vem a considerar ser um reencontro. Entretanto, a história imaginada do casal, e dos seus encontros e desencontros, vai-se desenvolvendo na narrativa, acabando por ser mesmo condutora das ideias e das reflexões de cariz existencialista do narrador, ao estabelecer um paralelo entre ele e o casal.
Nem só isto mas também, e principalmente, a acuidade dos momentos reflexivos do narrador que desperta a atenção e a curiosidade do leitor para o tema de onde venho, o que sou e para onde vou, o último romance de Abelaira acaba por ser uma fábula sobre a vivência do eu, do ser humano - ao mesmo tempo complexo e patético. Um livro com o cariz que o autor sempre nos habituou nos seus romances. Terá conseguido, finalmente, com este livro, dizer aquilo que ainda não havia dito, ou será que algo mais ficou para dizer?
(…) Eu, que sem acreditar na finalidade do universo (superstições!), acabo por acreditar ingenuamente que a minha vida tem um sentido, o de me unir à Adriana, após muitos anos desperdiçados. Como se, logo no Big Bang, os átomos desencadeados se dispusessem de tal modo que, quinze mil milhões de anos depois (o Sol, a Terra, as arqui-bactérias, os peixes, os mamíferos, o austrolopitecus, o sapiens), este encontro estivesse já contido nele, ainda que paradoxalmente submetendo-se ao acaso. Porque só acontece o que pode acontecer e as combinações do que pode acontecer são finitas, como finitas são as palavras do Hamlet (e como finitos serão, segundo Eddington, o número de electrões e número de protões de todo o universo). (…)