Nasceu de um blog. Um blog que é um verdadeiro blog: uma espécie de diário, onde o autor vai escrevendo, discorrendo sobre o que mais lhe aflige. Neste caso, o amor. Um amor que nos parece comum, fruto de uma relação comum, familiar a todos nós.
Paulo Ferreira conseguiu, através do seu antigo blog (com o mesmo nome que veio a baptizar o livro), um volume de uma escrita muito criativa, com sentido poético. Afirma tratar-se do amor no século XXI, “a partir do universo de Vergílio Ferreira”.
São cartas de amor, dirigidas a Mónica. Contam-nos estas cartas a história de uma relação entre um homem e uma mulher. A sua beleza, a sua contradição, os seus entraves, as recaídas, as incompatibilidades, e o fim inevitável. Nas entrelinhas, a dúvida, a emoção. O correr da vida, as suas questões previsíveis e imprevisíveis.
Um livro sem rótulos, e de uma escrita muito viva, sentida. Um espelho, se quisermos: estas cartas “mais não são que episódios de uma série de desilusões agridoces de que já todos fomos protagonistas – são as cartas que costumamos escrever, enviar e entregar a nós próprios (…) – não tanto cartas de amor, mas antes o amor em cartas”. Não é um romance, sequer uma novela ou conto. Não é poesia como o poema, mas é poesia pelo trabalho com as palavras, as alegorias, a fábula e a analogia, poesia escrita sob a forma de cartas. É um livro de cartas a Mónica. Um diário.
É uma feliz estreia para um autor, que se revela com grande talento poético para saber mexer nas palavras, e por isso, com um lugar reservado num promissor futuro literário. O estilo escrito, fazendo lembrar de leve o de José Luís Peixoto, é, apesar de tudo, singular. Aliás, o blog transformado em livro foi uma boa aposta por parte do autor, que edita o seu próprio livro. Bem construído e estruturado, Cartas a Mónica prova ao leitor e à literatura, que a escrita impulsiva e casual também é uma escrita artística, sem cair em clichés, preconceitos verbais e quaisquer tipo de regras e ortodoxias. As cartas que deveríamos saber todos escrever, mas que, no mínimo, estão agora ao alcance de muitos para serem lidas, relidas, e pensadas.
ECCE HOMO
Lanço-te beijos, como quem atira flores ao chão debaixo de teus pés – fagulhas incandescentes que se perdem no céu negro da noite, onde exaustos repousamos. Debruço-me sobre ti, largo-te um beijo sobre o rosto, percorrendo com a respiração os teus olhos nariz boca pescoço. Nas notícias das oito, dizem que
- hoje vai haver uma chuva de estrelas.
Comunidade científica e órgãos de comunicação social ignoram a verdadeira causa daquilo que chamam de fenómeno astronómico ímpar: não sabem que aquilo que os fará estar toda a noite em branco são apenas as tuas lágrimas que, evaporadas do teu rosto subiram aos céus, onde agora, em estado gasoso, ameaçam riscar o céu de luz. Vais já dizer que sou eu o causador dessas lágrimas, já sei. Que bem sei em que frágil estado tu estás e que uma vez mais não tive atenção a isso. Eu vou calar-me e tu vais insistir neste ponto. Vais ensaiar o número de choro e eu vou sentir-me culpado.
Mas em bom rigor, face a tudo, mesmo temendo que te lances num pranto, apetece-me ignorar o sal que te escorre pelas faces abaixo e, olhos nos olhos, ao invés de me culpar, sinto-me impelido a afirmar, quase com orgulho, que esta deve ser a primeira vez que me imputas as responsabilidades de algo belo. E isso, não sei muito bem porquê, faz-me sentir mais humano.