Opinião
Mickey Sabbath, fantocheiro de profissão, teve desde pequeno uma obsessão pelo sexo, indo para a cama com outras mulheres independentemente de ter ou não parceira fixa, partidário da poligamia e das maiores e mais variadas fantasias sexuais.
Drenka revela-se a sua amante perfeita, partidária do relacionamento sexual com qualquer homem que lhe interesse minimamente, complemento necessário ao seu casamento feliz com um homem virado para o trabalho e de poucos prazeres. Não sendo já muito novos, Mickey e Drenka têm uma vida sexual de fazer inveja a muitos jovens, algo que irá terminar abruptamente com a morte inesperada de Drenka. Mickey, com mais de sessenta anos, casado com uma mulher que abomina, sente-se perdido num mundo sem Drenka onde os fantasmas da sua vida vão agora persegui-lo, reabrindo velhas feridas de uma vida onde sofreu muitos abalos, começando com a destruição do seu núcleo familiar quando era ainda muito novo, passando pelo desaparecimento da sua (controversa) primeira mulher, aos problemas e escândalos com a sua segunda (e actual) mulher, acompanhados de vários julgamentos sociais do seu comportamento ortodoxo relativamente ao sexo e às mulheres.
Mickey é um provocador, que leva a vida aos seus limites, nunca se preocupando com o dia de amanhã, evitando assim fazer compromissos que o pudessem levar a alterar a sua maneira de ser. Não exigindo nada à sociedade, também não deixa que esta lhe exija nada, estando em permanente conflito com todo o tipo de regras e condutas sociais, possuidor de uma eloquência e capacidade de argumentação que vence qualquer pessoa que com ele se confronte.
Sustentado pela sua segunda mulher, abalados por um escândalo sexual que choca toda a comunidade em que vive, seguida pela morte de Drenka como estocada final, Mickey sai do conforto do seu lar, que era totalmente sustentado pela sua mulher, e volta à Nova Iorque da sua juventude, sob o pretexto verdadeiro do funeral de um dos seus antigos empresários do teatro onde conheceu o seu maior apogeu profissional.
Com constantes e oportunos flash-backs dos momentos importantes da sua vida passada, Mickey, depois de mais alguns devaneios em Nova Iorque, misturados com algumas preversões sexuais requintadas, decide arrumar a sua vida de uma vez por todas, regressando à sua terra natal.
Apesar de toda a sua alegria de viver e arrojo que lhe permite o máximo de experiência como verdadeiro ser humano, baseando-se no seu instinto e intuição como modo de vida, bem desenvolvida face à limitadora vida racional comodista de todos os outros, Mickey sofre por determinados entes queridos que lhe foram roubados, suportando a vida com uma vontade férrea de combater todos os que, continuamente, se lhe opõem. Pois a morte não tem piada enquanto houver com quem (ou por quem) lutar em vida.
É difícil saber (até para ele próprio) quando é que Mickey representa ou não, no seu palco da vida que é o Teatro de Sabbath. Mas o mesmo se aplica às outras pessoas que atravessam a sua vida, fazendo jus ao título do livro que coloca em causa o comportamento hipócrita da maioria das pessoas, que, por sua vez, representam um papel tanto ou mais anormal que a pessoa que acusam desse comportamento.