Opinião
Um homem, encarcerado, aguarda a execução da sentença de morte a que foi condenado. Da sua cela avista, através das grades brancas de uma janela ínfima, uma praia e o mar até ao fundo do horizonte. Do amanhecer ao anoitecer, através da vida que corre nos elementos da natureza da praia deserta, Jorge vai desfolhando momentos de uma vida pautada por uma não aceitação de todas as regras morais, sociais e políticas do meio em que viveu. Constante crítico de todas as restrições impostas pela sociedade, ainda novo se apercebe que a sua voz não será ouvida e que será condenado a um final infeliz, premonitório pelos exemplos reais e brutais a que assistiu na sua infância.
O relato dos vários episódios da sua vida intercalam-se, num monólogo em que contrastam as observações das coisas simples da natureza (a praia, o mar) e da vida (o pequeno Lúcio), e os diálogos e reflexões complexas e densas frutos do crescente descontentamento com o regime político que, personificadas no inteligente Teófilo, o levam a uma derrota abissal no confronto entre uma verdade que, embora podre, existe e fundamenta-se, e uma outra que se caracteriza pelo renegar de qualquer limite à existência.
Este é o grande calcanhar de aquiles de Jorge que, confrontando-se várias vezes com o próprio escritor do livro, Vergílio Ferreira, o acusa de ser demasiado humano e lamechas face a um mundo que, por se caracterizar dessa mesma forma, se deixa levar por meia dúzia de homens e ideias pobres, e não procura a sua verdadeira libertação numa extrapolação do ser que derrube todos os limites impostos.
Presa do seu próprio pensamento, perdido na extrema nitidez da sua visão da vida que torna tudo nulo, Jorge aceita a inexorabilidade do seu destino limpando tudo o que ainda o possa ligar a uma vida cujos momentos mais altos foram os mais simples, e, por isso, os mais verdadeiros. Pronto para morrer, após um julgamento onde defende a verdade de o homem ser muito maior que a sua imagem (simbolizada na destruição da estátua que tinha sido erigida a Jorge pelo próprio), enfrenta em paz um pelotão de fuzilamento que previamente abate o cão da praia que, além de Lúcio, falecido ainda em plena inocência, era a outra referência usada por Jorge para sustentar a existência de seres da natureza vítimas dos preconceitos e maldade dos homens.
Uma leitura difícil caracterizada pelos constantes saltos sem aviso entre o monólogo reflexivo, o presente vivido e ficcionado, e o relato constantemente interrompido de episódios reais do seu passado, este romance apresenta ainda como momentos altos a descrição fidedigna da sociedade portuguesa durante o regime Salazarista (sem nunca o referir directamente), onde, sem se comprometer demasiado na crítica à mesma, Vergílio Ferreira usa inteligentemente o próprio narrador que faz críticas ao escritor, por o considerar demasiado brando e sentimental; por outro lado, a excelente construção do personagem Teófilo, defensor do regime mas inteligente argumentador de uma verdade que lucidamente defende contra todas as evidências de uma verdade maior mas que não se sustenta.
Uma excelente apologia da procura da verdade auto-sustentada e que se limita a si própria, sem que se caia no erro de criar dogmas que apodrecem com o correr do tempo (Teófilo), por um lado, e sem que, não havendo limites, se corra no risco de cair no vácuo (Jorge). O homem é a construção dos seus limites, na constante re-invenção de si próprio.