Opinião de Leitura
Money Money

Autor: Amis, Martin

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Opinião

"O dinheiro não dá felicidade". Este ditado popular dirá algo a quem o possui, mas será quase uma ofensa para aqueles que sentem o tilintar do vil metal apenas no bolso dos outros.

John Self, o anti-herói de Money, é o perfeito exemplo de que o dinheiro não é garante da felicidade ansiada, podendo mesmo perverter as condições naturais para alcançar esse estado de pelo menos semi-felicidade. Uma infância complicada e um pai catastrófico já não seriam bons augúrios, mas o turbilhão em que a sua existência quotidiana cai é indissociável do ritmo alucinante a que os desejos insaciáveis de Self se apoderam dele próprio (permitam-me o trocadilho, “himSelf).

Martin Amis constrói uma fábula dos tempos modernos, recheada de pecados, luxúrias e alucinações bem actuais. Desde os excessos alcoólicos que turvam as acções de Self mas que podem muito bem ser conciliados com o seu ritmo diário de trabalho (olhe-se para os cocainómanos que hoje fazem disso o seu motor laboral), à dependência do prazer puramente físico em detrimento de um amor mais profundo, Amis retrata um mundo que apesar de mordaz e brilhantemente enfeitado, pode muito bem existir na cidade em que vivemos. Assombrosa e cruelmente hilariante a forma como descreve a árdua tarefa de John Self (conciliar os diferentes egos de actores e actrizes do filme por ele imaginado), revelando os egoísmos, conflitos e caprichos inimagináveis que o meio cinematográfico encobre.

John Self será por muitos considerado um personagem repugnante, mas as agruras e os episódios peripatéticos em que Amis o envolve impelem-nos a desejar o seu sucesso. Essa será uma das forças surpreendentes deste livro, um magnetismo que sentimos ser inexplicável, e que poderá fazer-nos reflectir sobre a tomada errada de opções na nossa própria vida. Que íman será esse que nos atrai para determinados abismos?

Excerto

"No fundo, lá bem no fundo, eu até sou um gajo alegre. A alegria, diz-se, é o alívio da dor, por isso, acho que até sou um tipo muito alegre. Alivio a dor facilmente. Mas experimento muitas vezes a dor. Por isso sinto muitas vezes esse tal alívio de que tanto se fala, e toda essa felicidade".

"Já roubei comida por ter fome, para sobreviver. Por uma semana ainda se consegue. Passado um mês começa a notar-se. Começas a ter o aspecto de um tipo que tem de roubar comida para sobreviver. E pronto. Acabou-se. Não podes continuar a roubar comida. E porquê? Porque eles adivinham-no, mal entras na loja. Vêem que não tens um chavo."

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