Opinião
Khadji-Murat é um lendário guerreiro tchecheno que luta pela libertação do seu povo da intolerância do opressor russo. O que poderia ser uma história linear e representativa de tantos mártires que, ao longo de todos os tempos, se bateram heroicamente contra inimigos tremendamente mais poderosos, é um testemunho tristemente real de todas as falsas motivações que levam os povos, quer oprimidos quer opressores, para guerras intermináveis ao abrigo de interesses particulares ou simples disposições de espírito de muito poucos indivíduos, que subjugam todos os que os rodeiam, não sendo muito diferente a crueldade que revelam face ao inimigo ou ao próprio povo que, aparentemente, defendem.
Quer Khadji-Murat quer Chamal são guerreiros que lutariam por uma causa comum, mas que um ódio de morte os separa, devido às rivalidades dentro do próprio povo a que pertencem, onde todos os irmãos de Khadji-Murat foram cruelmente mortos por Chamal. Investidos numa luta comum contra os russos, o ódio e o preço da honra é tão elevado que leva Khadji-Murat a tentar uma aliança com os russos unicamente para se vingar de Chamal. Num enredo extremamente hipócrita mas que surpreende, por um lado, pela esmagadora força real que o desenrolar dos factos revela, num complexo jogo de interesses entre os militares russos, Khadji-Murat e Chamal, percebe-se quanto facilmente é possível o desenrolar da fatalidade dos acontecimentos que sempre envolvem os povos em conflito, e a frieza e naturalidade com que os mesmos são encarados por todos os que desencadeiam os actos crúeis que sempre são relatados como grandes actos heróicos por todas as partes.
Mas muito mais contém este livro além de uma aparentemente simples história de guerra e jogos de interesses associados. Todo o sofrimento dos intervenientes, quer os mortos, quer as familías dos mortos, de ambos os lados do conflito, é relatado de uma forma extremamente humana e comovente, fazendo-nos sentir quanto condenável é a morte de qualquer ser humano às mãos da guerra, e quanto se perde por cada vida que é brutalmente ceifada na força da idade. Todas as mortes que acontecem, quer de participantes secundários neste romance (uma morte nunca é um acontecimento secundário), quer de alguns dos principais protagonistas, não deixam o leitor indiferente à indiferença que a guerra provoca por tantas vezes nos ser mostrada e relatada, mas, por nunca verdadeiramente sentida, se banaliza e nos faz esquecer que, dentro de cada ser que morre, está uma vida inteira de alguém que, como nós, tem uma série de sentimentos, ideais, ambições, e pessoas ligadas a estes, que ultrapassam toda a mesquinhez da guerra na qual caiu, onde a grande maioria, senão quase todos, se tornou um mero instrumento da guerra com a ilusória esperança de se livrar desta e viver a sua vida em paz com os seus.
Em toda a hierarquia militar russa ligada a este conflito, existem também jogos de interesses particulares que envolvem o próprio imperador, Nicolau I. Este não escapa a uma crítica acutilante de Tolstoi relativamente ao seu comportamento, à sua forma de pensar e à sua forma de agir, quer em termos das suas funções, quer a nível da sua própria vida pessoal, que ilustram o desencanto que este grande escritor sentiu no final da sua vida face ao seu próprio país, onde, após ter escrito obras tão importantes e imortais para a literatura universal como «Guerra e Paz» e «Ana Karenine», se lança, no final da sua vida, desiludido com o comportamento da humanidade que tanto elogiou nas suas obras, numa cruzada sem êxito contra todos os poderes instituídos, os religiosos e os políticos, pelo que este romance é um grito lúcido contra todos os dogmas e poderes, grandes e pequenos, que oprimem toda a humanidade e que a subjugam às tristes e utópicas ideias de alguns poucos que só se regem por princípios de vida podres baseados na vaidade e nos seus aliados mais directos, a honra a inveja, alicerçados pela cegueira do poder, que nunca se saciará, até à morte dos seus percussores, mas que deixarão, sempre e certamente, muitos sucessores.
Escrito há mais de 100 anos, este livro é um retrato assustadoramente real do que se continua a passar na região da Tchecénia nos dias de hoje. Igual a muitos outros conflitos no passado, no presente, e provavelmente no futuro, em qualquer região do mundo. Quantos continuarão a sofrer para alimentar vaidade de uns poucos, mas, mais terrível ainda, quantos dos oprimidos não fariam o mesmo se estivessem em posição de o fazer?
Tolstoi surpreende, para quem conhece os seus maiores livros, por um verdadeiro volte-face em tudo aquilo que defendia nestes, usando toda a sua mestria em termos de escrita, amadurecida por tantas obras-primas, para escrever um livro pequeno mas onde cabe todo o mal da humanidade, de uma forma extremamente lúcida e sem rodeios. Aparentemente o mal é mais sucinto de ser escrito que o bem, se tomarmos em conta o quanto de bom Tolstoi escreveu acerca da humanidade em livros anteriores.