Opinião
«Todas as Almas» é um titulo que, por si só, é bastante ambicioso e promete bastante, confirmando-se da melhor forma na leitura das primeiras páginas deste livro, com a descrição da actividade do porteiro da Universidade que, embora não tendo memória presente, acumula a memória de toda uma vida passada e aparentemente futura, que é usada como vivência presente em qualquer momento. No entanto, é apenas uma alegoria para uma história completamente diferente, que, embora se reconheça o mote nalgumas (muito pequenas) partes do livro, este revela-se mais uma pequena auto-biografia de um professor solitário na atmosfera de Oxford que um tratado sobre a multi-facetada natureza do ser humano que o título pressupõe. Embora o engano possa ser do próprio leitor, ou induzido de propósito pelo próprio escritor, a verdade é que este romance, embora soberbamente bem escrito, é uma leitura um pouco enfadonha pelo excesso de detalhe da vida em Oxford e pelo interesse particular do escritor na história e motivações de outro escritor, John Gwasworth.
O personagem principal e narrador é um professor Espanhol, que dá aulas temporariamente na Universidade de Oxford mas que tem quase todo o seu tempo livre, e que, estando só e numa atmosfera muito particular, sente que vive uma espécie de segunda natureza que se entranha nele próprio e que ele estranha, especialmente quando revê mentalmente os tempos que viveu nesta cidade, algum tempo depois de ter voltado a Espanha e retomar uma vida dita normal, casando e tendo um filho.
Na sua experiência em Oxford, o tempo livre e a atmosfera própria desse ambiente único criou-lhe uma percepção apurada para certos aspectos da vida, onde, à mistura com uma relação adúltera com uma mulher que lhe faz recordar a sua própria infância e a dela só de a olhar nos olhos, e uma obsessão pela procura por livros antigos pelos alfarrabistas (donde lhe surge depois o fascínio por John Gawsworth), mais alguns diálogos caricatos com o seu guia e protector, Cromer-Blake, que nunca desvenda a típica fachada britânica, e, em particular, a Oxfordiana (que nunca contam nada do que se passa no seu íntimo), o narrador descreve determinados tipos de percepções e experiências passadas nesta cidade, com uma interpretação peculiar bastante interessante em certos aspectos, revelando a subjectividade da interpretação das motivações da alma humana, dependendo da centralização em determinados aspectos, como a simples rotina de colocar o lixo na rua, ou a mirabolante divagação a partir de um simples encontro com uma mulher num comboio que é transposta diversas vezes para outras situações ao longo do livro.
As referências e descrições sobre Oxford, a cidade, a sua vida, e os costumes da vivência social na Universidade, embora um pouco enfadonhos porque talvez demasiado exaustivos, são de um apuro de escrita de grande qualidade, sentindo-se o leitor transportado para esse ambiente, ficando quase (?) tão afectado por este como o próprio narrador.
Tal como o narrador (autor?) intitula, a história da sua passagem por Oxford é a história de uma perturbação, um tempo em que, provavelmente por excesso de predisposição espiritual devido ao imenso tempo livre de que usufrui, passa por determinadas experiências, que, fugindo ao ritmo normal de vida de um sedentário, se apuram e se cristalizam de uma forma bela e pura como frutos de uma continuidade demasiado longa de uma existência extremamente solitária. São bastante interessantes as análises que o narrador faz às suas experiências, e em especial à sua relação com Clare Bayes, e os contrastes imprevistos com situações reais ou imaginárias de tudo quanto está a viver, revelando uma escrita superior que peca apenas por um excesso de egocentrismo na forma fechada e demasiado exaustiva com que se deixar dispersar por diversas vezes ao longo do livro.