Opinião
Uma leitura desta envergadura é esmagadora. Pelo número de páginas, claro, mas sobretudo pela dimensão que a arte da escrita adquire neste romance inolvidável. Por estas páginas passa tudo, ou quase, o que à condição humana diz respeito e por isso mesmo é uma leitura que ainda hoje, passado século e meio, continua actual.
Tolstoi é magistral a retratar cada uma das muitas personagens que povoam o romance. Da inesquecível Natasha (celebrizada por Audrey Hepburn numa das adaptações cinematográficas)a Pedro,da princesa Maria, ao príncipe André Bolkonsky. Consegue dar-lhes espessura e credibilidade. Fá-las viver angústias, dramas, paixões, felicidade construindo uma teia minuciosa de interacções.
A narrativa desdobra-se em dois planos: o dos pequenos grandes dramas domésticos e pessoais da miríade de personagens e o magistral plano histórico que acaba por ser a personagem principal do romance. As invasões napoleónicas de 1805 e 1812 são-nos descritas de forma assombrosa. A guerra era, e continua a ser, uma coisa horrível e Tolstoi dá-nos esse quadro de horror de forma quase insuportável de realismo.
Tolstoi reflecte ainda sobre os mecanismos que levam as sociedades a agir como agem. São as personagens históricas as responsáveis pelos grandes acontecimentos ou são antes os milhares de milhões de pequeninas acções individuais que despoletam os acontecimentos?
Quase tudo já terá sido dito e redito ao longo destes anos, mas nada se substituirá a uma leitura. A mim deixou-me saudades.