Opinião de Leitura
A Esperança A Esperança

Autor: Malraux, André

Leitor:

Opinião

A guerra civil espanhola como pano de fundo para magníficas descrições reais e dissertações sobre a condição humana, com inúmeros diálogos que despertam reflexões várias no leitor, entre vários tipos de homens que compuseram o núcleo das forças republicanas e internacionais que combateram Franco. Entre comunistas, socialistas, homens de todas as nações que se constituíram nas brigadas internacionais, uns com ideais mais extremados que outros, motivações diferentes mas alicerçadas na causa comum de libertação do povo espanhol de uma ditadura conservadorista, ébrios de uma esperança que nada temia e lutava contra forças em muito maior número e melhor apetrechadas, Malraux oferece-nos um retrato tão credível quanto imparcial do desenrolar da guerra, e, em particular, das contradições ideológicas entre os vários líderes das forças republicanas.

De uma imensa riqueza, tanto a nível do debate de ideias, como a nível da descrição de cenários de várias batalhas ou outras acções de guerra, com epicentro no ataque das forças de Franco a Toledo e Madrid, é impossível ficar indiferente aos vários pontos de vista, principalmente sobre a humanidade e o seu futuro, expressos por cada um dos líderes que nos são dados a conhecer e que são os personagens principais deste romance - Manuel o personagem principal - o homem simples que chega a general na medida das acções que tem que desempenhar durante a guerra, e que se debate com imensas questões de consciência, de liderança e de interpretação do comportamento dos homens, além das ideológicas, aconselhado por homens com maior experiência de vida e de guerra que ele, e que ajudam-no a chegar à conclusão da inevitabilidade do destino humano, onde a guerra só se descobre uma vez, mas a vida se descobre repetidamente todos os dias, dadas as infinitas possibilidades do homem.

Magnin, dissidente russo, líder da aviação republicana, envolvido em inúmeras operações quase suicidas, ciente pelos seus próprios chefes da inevitabilidade da derrota; Hernandez, um capitão republicano sem qualquer tipo de ideologia senão a libertação dos Espanhois do jugo de Franco, cuja ingenuidade lhe custará a vida; e Vargas, Garcia, Barca, Ximenez, Ramos, todos combatentes com personalidades fortíssimas mas bastante distintas que ditam um jogo de discussões ideológicas ou simplesmente humanas mas sempre pertinentes e enriquecedoras, num fresco cujo colorido se dá mais pela diversidade e profundidade dos carácteres humanos que se vão conhecendo ao longo do romance, que pela sempre confrangedora contagem dos mortos e pela situação insustentável daqueles que sobrevivem, tragicamente mas soberbamente descrita por Malraux, representando este livro um testemunho único da realidade do dia a dia da guerra.

As motivações do homem para a guerra, a infinita bondade e solidariedade que manifestam uns com os outros em situações de necessidade; a busca do ideal da fraternidade, expoente máximo da humanidade - a seguir à liberdade e à igualdade, uma vez que estas são hipócritas se a fraternidade não existir, pois é esta o cimento do expoente de qualquer civilização duradoura - são amplamente ilustrados e discutidos nesta grande obra de Malraux, tão intensa que não se consegue absorver devidamente sem uma segunda leitura.

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