Opinião de Leitura
Plexus Plexus

Autor: Miller, Henry

Leitor:

Opinião

Uma autobiografia romanceada de Henry Miller, onde este descreve passagens da sua vida antes de ter assumido verdadeiramente a sua vocação (e carreira) de escritor. Personagem rebelde e irreverente, nunca se conformando com a vida vulgar da maioria das pessoas que se casam, formam família e têm um emprego fixo com a mesma rotina diária, viveu uma vida de improviso durante imensos anos, sempre à míngua de dinheiro e muitas vezes de comida, pedindo a uns e a outros, arranjando uma ocupação qualquer de vez em quando para ganhar uns cobres, desde que não fosse algo de muito rotineiro nem por muito tempo, nem que o ocupasse demasiado, tendo assim tempo extra para fazer o que lhe desse na cabeça, onde, a pouco e pouco, começaram a amadurecer as suas reflexões acerca do seu inconformismo perante a vida ou valores da sociedade ocidental, e, em simultâneo, a sua escrita com textos esporádicos que eram valorizados pelos seus amigos ou apreciados por alguns editores de revistas.

Tendo uma companheira inseparável que o admirava muito e que compartilhava da sua postura perante a vida, Mona, juntos viveram essa vida a roçar a miséria mas nunca destituída de interesse, colorida pelas relações, diálogos e discussões que tiveram com imensas pessoas, fruto das suas constantes iniciativas de mudança de vida e de procurar algo novo. Desde a exploração de um bar clandestino a viverem na casa de um casal onde Miller fazia de secretário e Mona de ajudante da mulher, até à decisão de Mona arranjar um emprego fixo num bar enquanto Miller se dedicava à venda de enciclopédias (que assim lhe permitia trabalhar quando quisesse e ter imenso tempo livre), Miller deambulou por todo o lado travando os mais variados e excêntricos contactos e diálogos, que, neste livro, encontram-se certamente condensados naqueles que ele julgou mais pertinentes, muitos deles bastante interessantes para o leitor por tudo aquilo que o leva a reflectir.

No fundo, trata-se da descrição autobiográfica de um percurso de vida de amadurecimento e despertar da capacidade de escrita de Henry Miller, onde se encontram passagens marcantes dos seus encontros com pessoas que o ajudaram a encontrar e consolidar uma saída para um mundo ao qual Miller não encontrava muito sentido. Notando-se a solidificação progressiva das suas ideias e do maturar da sua capacidade e expressividade de reflexão, o livro culmina com um excelente último capítulo onde Miller resume a consolidação das suas ideias e do sentido que pretende dar à sua vida, num discurso baseado na grande influência que as leituras de Dostoievski, Nietzsche, Faure, e particularmente Oswald Spengler com a magnífica e visionária obra «Declínio do Ocidente» tiveram na sua maneira de pensar, complementada com alguma cultura oriental. Miller revela-se particularmente seguro neste capítulo mostrando a si próprio que, afinal, o seu lugar no mundo seria sempre, realmente, diferente da esmagadora maioria das pessoas, encontrando uma paz de espírito (aparente) com um conjunto de premissas de sabedoria que constituíram, certamente, a base para a sua carreira de escritor.

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