Opinião
A «Tentação do Ocidente» é um pequeno ensaio sob a forma de correspondência entre um europeu e um chinês, no início do século XX, que identifica de forma muito clara e objectiva as características do homem ocidental, na sua mentalidade, postura de vida, e na sua constante busca existencial ao longo da História, comparando-o ao homem do extremo oriente, que aparentemente se sente mais seguro de si mas ao qual falta a força/motivação de acção que é a base da cultura ocidental, embora essa força seja derivada de motivos menos nobres que repugnam ao homem do extremo oriente.
O homem do extremo oriente, Ling, é um homem que representa o chinês desiludido do confuccionismo/taoísmo, que procura na cultura ocidental o complemento à sua própria cultura, mas onde encontra defeitos que considera incontornáveis, denotando até uma certa tristeza e compaixão pelo ideal europeu, pela luta constante que o ocidental empreende em representações sucessivamente distorcidas da realidade, na obsessão de colocar sempre o homem como centro do mundo, na ilusão do contínuo desejo de acção e mudança, procurando sempre algo novo que o conforte sem nunca atingir a plenitude de paz de espírito, tornando-se ultrapassado pelas sucessivas gerações futuras que continuam a consolidar este destino europeu.
A.D. representa o homem europeu, que reconhece os diagnósticos sucessivos de Ling, e justifica a postura do homem ocidental perante a vida e ao longo da História, onde aceita o fatal destino do homem europeu, enaltecendo as características que o fizeram partir à conquista do mundo em todos os aspectos, conformando-se e lamentando-se da vã glória perene das suas conquistas face à constante ânsia de mudança.
As cartas apresentam reflexões muito bem conseguidas sobre o homem ocidental, sendo cada uma destas motivo de reflexão para o leitor que constantemente se depara com afirmações e explicações interessantes quer por parte de A.D., quer por parte de Ling.
Algumas afirmações de Ling:
«O artista não é aquele que cria, é aquele que sente».
«Cada civilização modela uma sensibilidade. O grande homem não é nem pintor nem escritor; é aquele que saberá conduzi-la ao seu mais alto período».
«Observo os Europeus; escuto-os; creio que eles não compreendem o que é a vida. Inventaram o diabo; felicito-os pela imaginação. Mas, desde que o diabo morreu, parecem-me vítimas de uma mais alta divindade da desordem: o espírito. O vosso é feito de maneira tão singular que da vida apenas podeis conceber fragmentos. Dirigi-vos para um fim, e nisso vos empenhais inteiramente. Quereis vencer. Que encontrais todavia sob as vossas pobres vitórias?»
«Eu gostava, caro Senhor, de lhe falar mais dos homens (ocidentais), mas até aqui não tenho visto senão obras.»
«A custo compreendeis que para ser não é necessário agir e que o mundo vos transforma muito mais do que vós o transformais...»
«O tempo para vós é aquilo que fazeis dele e nós somos o que ele faz de nós.»
«Ai! Como eu desejaria aí ter encontrado a força de que a minha raça tem uma necessidade tão dolorosa: e, perante a sua mais bela imagem, não pude conter a minha repulsa...»
«Não me espanta a fragilidade dos homens da vossa raça ante as suas paixões. A sua maneira de conceber e viver o tempo, a ideia que formam de si mesmos, tudo os impele a essa abdicação.»
Algumas afirmações de A.D.:
«A importância excessiva que fomos levados a dar à nossa realidade não é, sem dúvida, mais que um dos aspectos de que se serve o espírito para assegurar a sua defesa.»
«Esta defesa contra a incessante solicitação do mundo é a marca mesma do génio europeu, quer ele se exprima sob a máscara helénica ou sob a máscara cristã.»
«Uma inteligência fortemente organizada domina facilmente as representações humanas, porque está decidida a não fazer delas senão o adorno do sistema de juízos que a formou.»
«Os Europeus estão cansados de si próprios, cansados do seu individualismo que se desmorona, cansados da sua exaltação. O que os sustenta é menos um pensamento que uma fina estrutura de negações.»
«Não posso conceber o homem independente da sua intensidade. Basta ler um tratado de psicologia para sentir quanto as nossas ideias gerais mais penetrantes se deturpam quando queremos empregá-las para compreender os nossos actos. O seu valor desaparece à medida que avançamos na nossa procura, e é então fatal o choque com o incompreensível, com o absurdo, quer dizer com o ponto extremo do particular. A chave deste absurdo não será a intensidade sempre diferente que caracteriza a vida?»
«Para quem quiser viver fora de uma procura imediata, apenas uma convicção pode ordenar o mundo. Os mundos de factos, de pensamentos e de gestos, em que ambos vivemos, são pouco propícios às convicções: e os nossos corações retardatários não me parecem aptos a gozar, como conviria, a desagregação de um Universo e de um Homem a cuja construção se dedicaram tantos excelentes espíritos.»
«Não há ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, nós os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade.»
«Ó Europa, grande cemitério onde não dorme senão conquistadores mortos e cuja tristeza se torna ainda mais profunda ao adornares-te com os teus nomes ilustres, tu deixas à minha volta um horizonte nu e o espelho que nos traz o desespero, esse velho senhor da solidão.»
Em suma, um livro a ter em conta como ensaio despretensioso mas bastante lúcido e objectivo sobre o homem ocidental, escrito na infância da obra literária de Malraux, com base na sua vivência durante alguns anos na China, denotando a grande capacidade reflexiva que seria a trave mestra dos seus futuros romances.