Opinião
Madrugada começa com o Despertar de uma humana, um dos poucos que teve ao longo dos 250 anos que a separam de uma guerra aniquiladora na Terra. Lilith está em isolamento absoluto, numa sala sem luz ou objectos. Uma criatura estranha, depois de alguns acontecimentos indiciarem que o isolamento estará em trânsito para etapas menos áridas, aparece-lhe e inicia um longo processo de elucidação: como a sua espécie a resgatou e a mais alguns terráqueos de uma morte certa pela guerra, radiação atmosférica ou cancro hereditário (forma de adoecimento que se revela absolutamente fascinante para as criaturas). Se o
plot pode ter inúmeros pontos de contacto com a
sci-fi clássica, tudo aqui é apresentado de forma a que apenas por aproximação se perceba que tipo de alienígenas são aqueles. As suas estruturas, física e psicológica, sensorial, são tão diferentes das humanas que só por exercícios didácticos e quase metafóricos conseguimos (nós e ela) pensar que percebemos. Os
oankali, em toda a sua complexidade individual e colectiva, são percebidos e interiorizados devido a uma excelente técnica narrativa, principalmente através do que não nos é facultado. O leitor apenas dispõe de uma compreensão um pouco mais esclarecida do que a de Lilith.
Os
oankali abandonaram a sua origem há
quadrizitriliões de espaço-tempo em naves de essência indefinida (animal, vegetal, entidades inteligentes e outras características). Vagueiam pelo universo à procura das mais diversas formas de vida, sendo que "vida" também passa a ser um conceito subvertido. Quando encontram algo que lhes interessa (no caso humano foi o potêncial para a inteligência, o potêncial para a auto-destruição e doenças como o cancro) iniciam um processo que um terráqueo, mais uma vez em aproximação conceptual selvagem, denominaria como hibridificação, ou, na expressão das criaturas, Permuta. Aperfeiçoam as espécies (livram-nas definitivamente de certas doenças, por exemplo), participam nas suas actividades reprodutivas (alguns dos mais interessantes momentos do livro) e, depois, um sub-grupo alienígena mistura-se com elas, de regresso aos seus mundos originais. Daí vão surgir novos seres que se lançam à procura, novamente reiniciando o ciclo.
O início da trilogia foca as diferentes fases por que a preparação dos humanos vai passando. Os nomes dos capítulos dão uma ideia da demiurgia que se avizinha: n
O Ventre assistimos ao Despertar de Lilith e à sua estranheza e desespero; n
A Família, Lilith convive e adapta-se à realidade
oankali (ou, pelo menos, à que lhe é facultada), ao mesmo tempo que sofre algumas modificações genéticas, químicas e neuronais, que lhe permitirão um desempenho mais eficiente na fase seguinte (bem como uma diferenciação em relação aos restantes humanos que serão Despertados); n
O Berçário, Lilith é designada para Despertar os seus (agora apenas quase) semelhantes e para os ajudar na difícil transição de um sono de centenas de anos; n
O Campo de Treino surge a simulação das florestas telúricas para onde, supostamente, humanos e algumas criaturas serão lançados depois desta fase de preparação supervisionada.
Este primeiro volume abre as portas de um universo humano e alienígena / humano + alienígena; bem representativo, pelo constante confronto entre familiaridade e estranheza a que o leitor é sujeito, daquilo que as personagens sentem ao longo da história.
Ritos de Maioridade e
Imago (o segundo e terceiro volumes de
Xenogénese) continuam esta fascinante narrativa.