Opinião
«A Obra ao Negro» trata-se de um romance fortemente baseado em factos históricos, quer em termos de caracterização ideológico-psicológica dos vários tipos de personagens que surgem no seu enredo, quer em termos dos principais tipos de acontecimentos e vida da sociedade europeia do século XVI, grandemente flageada por conflitos de carácter religioso, agravados com o surgimento da Reforma, em plena transição entre a Idade Média e o Renascimento.
Marguerite Yourcenar tomou 31 anos (com várias interrupções) desde a escrita das primeiras linhas deste romance até ao seu final, passando o próprio romance por várias metamorfoses, qual processo alquímico evocativo do seu personagem principal, Zenão. Este encarna, em termos de percurso de vida e modo de pensar, uma mistura de inventores e estudiosos que viveram nesse século, tais como Paracelso, Campanella e Leonardo da Vinci (dos quais são evocados partes dos seus trabalhos escritos e pensamentos) sendo a sua infância e juventude baseada na biografia de Erasmo de Roterdão.
Muito mais do que um romance histórico, «A Obra ao Negro» ilustra a vida de um homem que, renegando em parte os dogmas da forte formação religiosa que teve até certa idade, sacrificou um futuro confortável como membro da Igreja para se dedicar à descoberta do máximo possível das profundezas do ser humano a todos os níveis, tornando-se médico como profissão, mas alquimista e filósofo pela necessidade de tentar encontrar as respostas para as dúvidas e mistérios deste mundo.
Filho de uma relação fugaz, teve como irmão Henrique Maximiliano, grande adepto de uma boa vida ao serviço das armas, com o qual teve um confronto de ideias interessante cerca de vinte anos depois de se terem visto pela última vez, sendo Henrique característico de um tipo de homem que sobrevive alegremente no meio de qualquer tipo de dúvidas dogmáticas ou de outra natureza, saboreando o fruto do dia a dia.
Muitas outras histórias e personagens simbólicos se entrelaçam na vida de Zenão, directa ou indirectamente. O destino da sua mãe, que escolheu a companhia de um homem rico mas humilde e profundamente religioso, cujos ideais os levaram a uma morte sem glória, representa a tragédia de uma devoção correcta em termos de atitudes, mas num tempo errado. O fruto dessa relação, a filha Marta, tem um traço psicológico muito semelhante ao seu meio-irmão Zenão, que, embora (sem se conhecerem) muito parecidos em termos de pensamento céptico e horizontes largos, têm posturas de vida diametralmente opostas, onde Marta se acomoda a uma vida hipócrita e confortável, casando com um homem rico, ciente de que nada ganharia se se expusesse e lutasse pelos ideais mais profundos em que acreditava, não considerando a sua coragem menor que a do seu meio-irmão, uma vez que, segundo Marta, tanta força e sacrifício são necessários para se viver dentro dos costumes e da vulgaridade, como para tentar, assumidamente e publicamente, lutar pelos ideais em que se acredita.
Zenão, viajando por meio mundo, tal como Paracelso, colheu um vasto conjunto de conhecimentos e experiências, que, mais tarde, tendo que os reprimir para ter uma vida estável e anónima longe dos seus perseguidores, contribui activamente para tratar todos os doentes de um hospício junto de um convento, com cujo prior manteve longas e intermináveis conversas abertas e sem tabus sobre vários aspectos da existência do homem, numa cumplicidade sagrada que durou até à morte do prior.
Destinado, mais cedo ou mais tarde, a ser descoberto e preso, num tempo em que as perseguições religiosas e os autos-de-fé estavam no seu auge, teve, graças à sua relação com o já defunto prior, direito a um longuíssimo julgamento, onde, após várias discussões de trocas de argumentos teológicos, os factos gravosos acabaram por se resumir a questões de detalhe sobre os conceitos de Deus e do Milagre.
«O homem é uma empresa que tem contra si o tempo, a necessidade, a sorte, a imbecil e sempre crescente primazia do número - os homens hão-de matar o homem». Numa longa e última discussão com Campanus, o cónego responsável pela sua educação e formação e que fazia parte do conselho de juízes encarregados de o condenar, Zenão é o exemplo do quanto uma alma limpa e sem dogmas, sem maldade e sem hipocrisia, acreditando no homem e numa entidade superior que não à imagem do homem, podia (e ainda pode?) ser vítima de todos os sistemas hediondos criados pelo homem para os iludir e controlar, submetendo-o às leis mais ridículas que só assim se provam cabalmente com o passar dos séculos, após milhões de mortes ou incumprimentos forçados de destinos significativos.