Opinião
Este livro é um ensaio descontraído e divertido sobre a sabedoria de vida, em termos práticos, alicerçado na experiência pessoal de 6 grandes pensadores de todos os tempos, cada um numa vertente distinta: Sócrates, sobre a impopularidade, Epicuro, sobre a falta de dinheiro e o caminho para a felicidade, Séneca, sobre a frustração, Montaigne, sobre a inadaptação, Schopenhauer, sobre o amor, e Nietzsche, sobre as dificuldades.
No capítulo sobre Sócrates, além de elementos biográficos interessantes sobre a vida do mesmo, com realce para o seu julgamento e condenação à morte, fala-se sobre a falsa perspectiva real da sociedade e dos seus códigos, que são diferentes de época para época e de civilização para a civilização, em que Sócrates, através da regra do senso comum e do questionar dos costumes, apresentou-nos o método socrático de pensamento, de como pensar por si próprio sem se deixar influenciar pelo que os outros pensam porque maioritariamente convencionado em função da época ou sociedade em que vivem.
Desta forma, o autor destaca: «A validade de uma ideia ou acção não pelo facto de ser amplamente acreditada ou amplamente rejeitada, mas pelo facto de obedecer a regras de lógica. Não é pelo facto de um argumento ser denunciado pela maioria que poderemos dizer que é errado, nem pelo facto de ser aceite por aqueles que se sentem atraídos por um desafio heróico, que está certo. O filósofo ofereceu-nos um modo de escaparmos de duas grandes desilusões: as de que deveremos ouvir sempre ou rejeitar sistematicamente as imposições da opinião pública.»
No capítulo sobre Epicuro, onde se faz uma breve descrição do ideal de vida feliz de Epicuro, que ele próprio materializou, faz-se a apologia daquilo que é necessário para se ter uma vida realmente feliz, em Epicuro afirmava que a tarefa da filosofia era ajudar a interpretar os nossos sentimentos de angústia e de desejo e desse modo salvar-nos de esquemas enganosos que prometem a felicidade.
A felicidade como uma possível aquisição em termos epicuristas, que passa, segundo este, pela amizade, «de todas as coisas que a sabedoria nos dá para nos permitir uma vida de total felicidade, a maior de longe é ter uma amizade», pela liberdade, em que se deve tentar viver o máximo possível sem depender de nada nem de ninguém (que Epicuro materializou vivendo na sua própria quinta, sem precisar de nada do exterior - além dos seus amigos), e pelo disciplinar do pensamento, «não existe nada na vida que possa parecer terrível para aquele que compreendeu sem a menor dúvida que não existe nada de terrível em não viver», seguindo-se ainda uma identificação, segundo o próprio autor, baseado nas teorias epicuristas, de encontrar um projecto para a felicidade.
Ainda, neste capítulo sobre Epicuro, seguem-se uma série de desmistificações acerca dos ilusórios caminhos para a felicidade que a posse material (dinheiro ou outros) parece oferecer. Assim, considerando que um aumento na riqueza das sociedades parece não garantir um aumento da felicidade (onde o autor dá alguns exemplos reais), Epicuro teria sugerido que as necessidades que as coisas dispendiosas implicam não podem ser aquelas das quais depende a felicidade. Ainda, como corolário de várias demonstrações o autor chega à conclusão de que a felicidade pode, de facto, ser difícil de alcançar, mas que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, os obstáculos poderão não ser essencialmente financeiros.
No capítulo sobre Séneca, o leitor é surpreendido e eventualmente sentir-se-á comovido com a descrição do magnífico exemplo de vida deste grande pensador, que, vivendo constantemente com a hipótese de ter que morrer de um dia para o outro, vítima do jugo opressor e maquiavélico dos dois imperadores sanguinários de quem foi conselheiro, Calígula e Nero. Em condições completamente adversas a qualquer aparente possível bem-estar interior, Séneca construiu uma fortaleza de sabedoria cujo expoente máximo se traduziu num conjunto de regras e postura de vida capaz de fazer face a todo o tipo de frustrações.
Segundo o autor, «as suas experiências haviam-lhe ensinado um extenso dicionário de frustrações, e o seu intelecto uma série de respostas a essas mesmas frustrações. Anos de filosofia haviam-no preparado para o dia catastrófico em que o centurião de Nero lhe batera à porta da quinta.»
O dicionário sobre a frustração segundo Séneca, ensina a forma como lidar com a Ira, «aquilo que nos leva a sermos dominados pela ira são noções perigosamente optimistas sobre o modo como deveria ser o mundo e as outras pessoas», sobre o Choque, «vivemos no meio de coisas que foram todas destinadas a acabar. Nasceste mortal e mortais darás á luz. Conta com tudo, espera que tudo te possa acontecer», sobre o Sentido de Injustiça, «as intervenções da fortuna, gentis ou diabólicas, introduziram um elemento aleatório nos destinos humanos», sobre a Ansiedade, «se quiseres acabar com todas as tuas preocupações, parte do princípio de que aquilo que receias que possa acontecer vai realmente acontecer», e ainda acerca dos Sentimentos que temos quando nos sentimos escarnecidos quer por objectos inanimados quer por objectos animados.
Assim, dando vários exemplos reais e concretos, o autor defende a tese de que, para saber lidar com a frustração, «não é menos despropositado aceitar qualquer coisa como necessária quando o não é do que nos revoltarmos contra qualquer coisa quando o é. Podemos facilmente seguir um caminho errado tanto aceitando o desnecessário e negando o possível como negando o necessário e desejando o impossível. Torna-se razoável fazer a distinção».
O capítulo sobre Montaigne traduz um modelo de vida baseado na busca da sabedoria, quer pela sua experiência de vida, quer pelo estudo que fez de obras de centenas de autores, sem nunca descurar as suas obrigações sociais, que cumpriu de forma zelosa e exemplar, sendo um autêntico exemplo imortal de um sábio que não descura qualquer componente da vida, ao contrário de muitos outros que se remeteram para dentro de si próprios, e viveram continuamente desadaptados da realidade em que viveram, não obstante as grandes obras imortais de pensamento e/ou filosóficas que criaram.
Sendo um pensador que sempre se adaptou à realidade em que vivia, é curioso vir dele a teoria da inadaptação, que o autor infere a partir dos seus escritos. Assim, para começar, o autor descreve os aspectos mais relevantes da vida de Montaigne, com destaque para dois dos seus pensamentos: «aprendermos que fizemos ou dissemos uma coisa estúpida não é nada; devemos aprender uma lição mais ampla e importante: que não passamos de pessoas estúpidas», e ainda «a nossa vida é composta parcialmente por loucura e na parte restante por sabedoria; quem quer que escreva sobre ela sob um aspecto meramente respeitoso e segundo as regras, deixa mais de metade para trás».
De seguida, somos presenteados com três excelentes secções sobre tipos distintos de inadaptação: a inadaptação sexual, a inadaptação cultural e a inadaptação intelectual. Sobre o primeiro, temos como destaque «se damos importância ao tipo de quadros que nos rodeia, é porque moldamos a nossa vida segundo o seu exemplo, aceitando aspectos de nós próprios, se estão de acordo com aquilo que os outros referem a nosso respeito. Aquilo que vemos como evidência nos outros procuraremos realizar nós próprios, aquilo que os outros não falam poderá deixar-nos indiferentes ou experimentar às escondidas».
Sobre a inadaptação cultural, o autor descreve relatos de Montaigne sobre as diferenças de costumes de país para país que observou na sua época, onde certas coisas consideradas normais num país eram consideradas completamente anormais noutro, e ainda uma dissertação de Montaigne sobre a infeliz chacina dos povos americanos pelos espanhóis, que, devido às diferenças culturais e de costumes, consideravam esses povos como inferiores e que portanto poderiam ser dizimados à vontade, pois segundo eles não eram humanos no verdadeiro sentido da palavra (existindo inclusivamente estudos sérios a defender essa tese!).
Por fim, a secção sobre a inadaptação intelectual é um verdadeiro manual de sabedoria e de cultura real, onde o autor ilustra o que Montaigne considerava que as pessoas ditas inteligentes deveriam mesmo saber, como é que as pessoas deveriam ser conhecidas e parecer, e onde é que as pessoas verdadeiramente inteligentes deveriam ir buscar as suas ideias, desmistificando a ideia errada de obter o conhecimento a partir dos outros, por mais eruditos e experientes que sejam, mas que este conhecimento deve partir sim a partir da aprendizagem de si próprio e da sua experiência de vida, «deveriam conhecer os factos, e se isso não acontece e além disso têm obtido os factos errados de um livro, não deverão esperar misericórdia dos académicos, o que será justificado deixando-os cair...», ilustrando ainda com «se os homens fossem sábios, avaliariam o real valor de qualquer coisa pela sua utilidade e adequação à vida», e «vi no meu tempo centenas de artesãos e de agricultores mais sábios e mais felizes que reitores universitários», rematando com «somos mais ricos do que pensamos, cada um de nós».
O capítulo sobre Schopenhauer, aconselhado para quem sofre ou sofreu desgostos amorosos, é uma verdadeira desmontagem tão cruel quanto lúcida e racional dos verdadeiros motivos que estão por trás do amor, como nunca algum filósofo ou pensador o tentou fazer ao longo de toda a história da humanidade.
Antes do debate sobre essa temática, é descrita uma biografia resumida da vida de Schopnehauer, eterno céptico pessimista da vida em geral, mas cuja lucidez abriu novos horizontes a uma melhor percepção da realidade, tão condicionada pela vontade e representação desta, efectuada, de forma diferente, por cada um de nós, «será que alguém com uma grande mente seja capaz de atingir a sua meta e criar um trabalho permanente e perene, se tivesse como estrela-guia o fogo-fátuo da opinião pública, ou seja, a opinião de mentes tacanhas?».
Uma história de amor contemporânea, com notas Schopenhaurianas, é o invólucro da descrição crua das verdadeiras causas do amor e das suas obrigatórias desilusões, onde explica como é que pessoas que realmente não foram feitas para viver juntas se apaixonam, e como é fatal o desencanto da paixão pouco tempo depois de se ter consumado verdadeiramente a mesma, em que se pode destacar «aquilo que é decidido por ele (amor) não é nada mais nada menos do que a composição da próxima geração... a existência e constituição especial da raça humana em tempos que hão-de vir», e «o intelecto compreende apenas o estritamente necessário para promover a reprodução e permanece excluído em grande parte das resoluções reais e das decisões secretas da própria vontade».
Seguem-se à laia de conclusão ainda mais algumas tiradas Schopenhaurianas típicas da sua visão céptica mas tão lúcida da realidade, onde defende que devemos estar preparados para todo o tipo de desilusões, aceitando-as como naturais em vez de sofrermos com elas, pois «no decorrer da sua própria vida e dos seus infortúnios olhará menos para si como indivíduo e mais para a humanidade como um conjunto e irá conduzir-se de acordo com isso... mais como um conhecedor do que como um sofredor».
O capítulo sobre Nietzsche disserta, com muitos exemplos, e infere de forma bastante bem sustentada, que as dificuldades devem ser aceites e até procuradas como parte integrante e fundamental da realização de uma vida e como base da sua felicidade pelo ultrapassar dos obstáculos. Assim, Nietzsche defende que é necessário termos dificuldades para alcançarmos algo de grandioso, dando como exemplo a vida de grande homens que, à custa de muito esforço, sacrifício, frustrações e tentativas malogradas, mas muita dedicação e persistência, saíram de uma aparente vulgaridade para alcançarem a eternidade de grandes obras realizadas. Não existe propriamente talento, mas sim muito trabalho e persistência, ou melhor, o talento é apenas uma parte ínfima da base de uma grande obra.
Tal enfoque da vantagem das dificuldades segundo o pensamento de Nietzsche traduz-se, de forma resumida, em «examinemos a vida das melhores e mais produtivas pessoas, e perguntemos a nós próprios até que ponto é que uma árvore que se espera que cresça a grande altura poderá suportar mau tempo e tempestades; se os infortúnios e as resistências externas, alguns tipos de ódios, invejas, teimosias, desconfianças, dificuldades, avareza e violência não fazem parte das condições favoráveis sem as quais qualquer crescimento importante, mesmo o da virtude, se torna dificilmente possível».
Assim, como nota final, de registar a grande valia deste livro, que pode ser lido vezes sem conta, tal a riqueza e profundidade de pontos de vista pertinentes sobre os temas cruciais da vida que aborda. Ainda, o trabalho exemplar do autor, não só na recolha e selecção de elementos biográficos e textos dos pensadores apresentados, tal como a construção narrativa que prende o leitor, simultaneamente divertindo-o e aconselhando-o sobre as várias formas sobre as quais se pode reflectir e agir perante a vida, de forma prática. Conselhos sábios mas perenes tanto quanto cada um se deixa facilmente conduzir e ludibriar pelo seu próprio carácter e curso de vida, mas certamente pertinentes na abertura de horizontes de reflexão para uma postura de vida mais pragmática e contemplativa, sem descurar a sua realidade com lirismos filosóficos, tal como Montaigne e Sócrates tão bem materializaram nas suas vidas, dois exemplos vivos de como sabedoria e prática puderam coexistir num mesmo ser.