Opinião de Leitura
Memórias Póstumas de Brás Cubas Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Assis, Machado

Leitor:

Opinião

Um romance sobre a forma de autobiografia, sendo esta constituída por episódios mais ou menos soltos, não propriamente representativos das fases da vida mais importantes de Brás Cubas, mas das situações que ele (?) próprio considerou que deveriam ser relatadas, num estilo entre a descrição exacta e o devaneio, entre o humor e sátira à sua própria vida, em que o autor do livro se confunde com o narrador e este com a própria personagem principal, num jogo com o leitor que o confunde e diverte, e simultaneamente o coloca como espectador privilegiado da perenidade dos valores, paixões e ambições ilusórias da vida ou de cada uma das suas etapas, por via dos desenlaces inconsequentes e vazios que se dão com as personagens do romance, traduzindo de facto a ruína de cada vida, não obstante os mais breves ou mais longos períodos ditos áureos que cada pessoa vive.

Brás Cubas, após a sua morte, traça um retrato da sua vida, iniciado com uma visão abrangente da fatalidade da vida e condição humana em geral, igual em todos os tempos, passados, presentes e futuros. As grandes expectativas rodearam toda a sua vida, desde as dos seus pais, familiares, amigos, amantes, às suas próprias, que, ironicamente e humoristicamente, nunca se concretizaram, não obstante a vida cómoda e fácil que teve dado o legado que a família lhe deixou.
Os amores são parte significativa da sua vida, continuamente frustrados e nunca completamente concretizados, por condições sempre tornadas impossíveis de levar a bom termo, com apogeu numa relação adúltera e escandalosa recheada de episódios caricatos e comoventes, numa teia de relações tensa e delicada que são matriz de grande parte do romance. Várias formas de amor vive Brás Cubas, mas, dado a sua personalidade complexa e indecisa e as próprias circunstâncias particulares em que estes acontecem, são comoventemente trágicas e sem futuro concreto.
Quincas Borba é outro personagem que entra na vida de Brás Cubas, através da exposição e partilha de uma nova filosofia de vida, representando a futilidade dos ideais que se criam e que o tempo transformará em pó, como sempre acontece.

Entre lucidez e devaneio, puro rigor ou puro desleixo, Brás Cubas deixa capítulos escritos que, tomados cada um por si, podem por vezes parecer descabidos ou inúteis, mas, analisados de um ponto de vista mais abrangente dos seus escritos, deixa-nos uma visão completa e consistente da constituição do pensamento de uma vida, onde nem tudo o que parece importante é importante, e nem tudo o que não parece importante é realmente não importante, uma vez que a vida racionalizada é certamente uma visão minimalista, redutora, e talvez o menos importante da descrição da vida em si.

Daí, temos um romance sublime e genuinamente original, sem preconceitos ou limitações próprias da utilização de um estilo rígido de escrita, que, aventurando-se numa abordagem de escrita livre mas abrangente de tudo o que possa passar no pensamento de uma pessoa ao longo da sua vida, satiriza e reduz à insignificância a ilusória importância da mesma, de forma bem humorada realçando e desmistificando a postura rígida que muitas vezes tomamos perante a mesma, o que nos impede inconscientemente de a vivermos em pleno.

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