Opinião de Leitura
O Senhor Kraus O Senhor Kraus

Autor: Tavares, Gonçalo

Leitor:

Opinião

O Senhor Kraus, cronista, é convidado a comentar a política actual para um jornal. Com um grande sentido satírico e levando ao extremo e ao absurdo alguns cenários do dia a dia da vida de um chefe político, apresenta uma série de crónicas que caracterizam o lado mau da política governativa, baseada no conceito de que o (mau) chefe (político, mas poderia ser um chefe noutra área qualquer) é uma personagem completamente egocêntrica e que vive apenas para as aparências, alicerces que inconscientemente (?) fundamentam toda a sua acção na vida. Ainda, como para cada chefe existem subordinados, estes também surgem retratados nas crónicas somo tristes subservientes da chefia que concordam com tudo na esperança de virem a ser recompensadas no futuro, ou simplesmente contaminados pelo espírito medíocre do chefe que só admite ter consigo pessoas que pensem como ele.

Os sugestivos títulos do índice das crónicas aliciam o leitor para as temáticas abordadas:
. Uma Tarde na Vida do Chefe
. O Instinto
. A Constipação
. O Chefe que Gostava de Movimento
. A Ponte
. Inaugurações
. O Mapa
. As Sondagens
. Um Dia Antes das Eleições
. O Dia Seguinte às Eleições
. O Regresso
. Parque de Estacionamento
. Sobre um Governo Iluminado
. Decisões Legais, e Outras
. Sobre os Meios Aéreos da Nação
. O Chefe que Dava o Exemplo
. Pagar Mais Impostos é Bom para Quem Paga Mais Impostos
. O Índice
. A Queda

Ao bom estilo de Gonçalo M. Tavares, que procura sempre que os seus escritos não sejam demasiado situados na actualidade e consequentemente não correm o perigo de se tornarem desinteressantes passados alguns anos, as crónicas revelam aspectos crónicos do comportamento dos maus políticos desde tempos imemoriais, embora que ponteados por algumas situações, como por exemplo «Sobre os Meios Aéreos da Nação» que, embora bem actual, não deixa de figurar bem num compêndio sobre má política nos séculos vindouros.

Muitas vezes com uma lógica sem sentido, construindo paradoxo sobre paradoxo em que no final de cada crónica tudo se encaixa, onde as próprias personagens se deixam enganar a si próprias na febril e ignorante percepção do imediatismo popular das suas decisões e acções, este livro, além de ser divertido é também um sério resumo do quanto a política governativa (e a chefia em geral) pode ser um acto irresponsável dos quais os protagonistas são os últimos a tomar consciência do mal que fazem, inebriados pelo gozo do poder e pela ânsia das medidas populares, centrados numa vaidade que, sendo comum a qualquer homem, é uma característica fatal para quem exerce um cargo de chefia política.

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