Opinião
Mattia Pascal é um homem que, após uma infância e adolescência feliz em que nada lhe faltou, caiu num pesadelo de vida causado pelo desabar do seu património e pela vivência à míngua num casamento meio forçado na casa de uma sogra que o detesta, ganhando uns trocos numa biblioteca meio bolorenta onde ninguém vai. Desorientado com a sua vida, após a morte da sua mãe parte ao acaso sem dizer nada a ninguém e, nesse mesmo acaso, ganha uma fortuna num casino. Em simultâneo, sabe da notícia da sua morte, confundido com outra pessoa que se suicidou, o que lhe dá azo a iniciar uma vida completamente nova, só e sem quaisquer compromissos.
Aquilo que seria o aparente sonho de qualquer um torna-se, a pouco e pouco, noutro pesadelo. Sem identidade própria, perseguido pela força do seu anonimato que tem que manter, não pode nunca criar raízes em qualquer sítio, e a sua suposta liberdade torna-se numa prisão. Sente a vida a fugir-lhe pelos dedos, e, após um ano de viagens, a existência salda-se perene e sem fundamento. Aos poucos e poucos tenta fazer um compromisso em que não abdique da sua liberdade, mas enreda-se numa trama complexa onde, pelo desespero de estar a fazer sofrer outros devido à tirania do seu anonimato e às mentiras a que não pode fugir, a sua consciência e sentido de existência clamam por uma consistência de vida que é a base do equilíbrio interior de todo o ser humano.
Uma sátira feroz aos desígnios egoístas e mesquinhos de cada um no seu relacionamento com os outros (e não apenas propriamente de Mattia Pascal), e a revolução interior de um homem que acaba por descobrir que não há existência sem compromissos, aliás, que são estes que a modelam.