Opinião de Leitura
Todos os Dias Todos os Dias

Autor: Reis-Sá, Jorge

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Opinião

Um romance composto por monólogos e pautado por capítulos curtos focados num único narrador, sendo este diferente e intercalado com outros de capítulo para capítulo, organizados numa aparente sequência cronológica de episódios passados num único dia, divididos em aurora, manhã, almoço, tarde, crepúsculo, jantar e noite, um único dia representando todos os dias de vidas dos membros de uma família, relatos saudosos de momentos vividos, centrados numa personagem já desaparecida, cerne e luz de vida dessa família, admirado mesmo nas suas incompreensíveis decisões, guardador de um segredo que se vai adivinhando e de um estado de espírito que transparece o contrário daquilo que ele pensa de si próprio.

Num estilo bem trabalhado e muito cuidado, a roçar a perfeição, pensamentos de vida recorrentes com um toque poético, pequenos diálogos de expressões repetidas como ênfase de momentos marcantes e inesquecíveis. António e Justina, casal de idosos que perderam o seu filho predilecto, revêem em Rafael, filho do seu outro filho Fernando, episódios de vida do seu malogrado filho Augusto, cuja influência sobre Fernando continua obsessivamente viva após a sua prematura morte, num misto de ódio e admiração, numa prisão de sentimentos à qual não é estranha a demarcação sôfrega que este tenta fazer baseada num novo ambiente familiar que ironicamente se encontra ainda mais preso ao seu falecido irmão do que possa pensar, embora pressentido nos seus mais variados gestos diários.

Justina, António e Fernando, narradores vivos, os dois primeiros saudosos de um passado que não volta e de uma velhice vivida na base da vida dos seus mortos, Fernando preso de um mesmo passado por um irmão que está morto mas que continua presente no seu pensamento e viver de todos os dias, passado comum cuja chave se encontra no relato do quarto narrador, espírito que habita a casa e que coloca sob perspectiva as verdadeiras motivações de cada elemento da família.

Os fragmentos de um dia vividos sobre perspectivas diferentes num mesmo espaço, a percepção de que um dia pode ser a súmula de todos os dias, as acções viciadas pelas memórias de um quotidiano partilhado, sentimentos e impressões que se cristalizam num devir previsível, amanhãs que ainda assim surpreendem por tudo aquilo que ainda não se aceitou ou compreendeu, numa vida interior manifestamente mais rica, reforçada por um vazio exterior resultante de emoções mal resolvidas, num quotidiano embaraçante de convívios automatizados, ultrapassados e tornados caducos pela inexorável marcha do tempo, esmagador da superfície da eternidade, selector aleatório das pequenas migalhas douradas do cerne da existência de cada um.

Tudo isto transparece nos monólogos deste livro, representante assustador da alma solitária de cada um de nós, mas reconfortante na sabedoria compreensiva e acolhedora das fragilidades que cada um acumula ao longo da vida, numa fraternidade cúmplice e silenciosa com os outros, sinal de um humanismo nem sempre presente mas pressentido por todos a espaços, talvez muitas vezes ausente por expectativas diferentes na forma natural e distinta da construção do sentir de cada um, esbatidas pelo passar do tempo.

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