Opinião
Um homem às portas da morte conta a história da sua vida a um escritor a quem encarregou de passar a mesma para livro. Não é uma biografia linear nem objectiva, trata-se de uma composição de retalhos de memória aleatórios mas muito precisos, que paradoxalmente caracterizam com maior exactidão a biografia sentida por cada um enquanto tal, prisioneiro das suas próprias experiências, notável monumento confuso que representa todas as incoerências e inconsistências da vida.
A armadilha da memória e da verdadeira representação da realidade vivida por cada um estende-se ao leitor, que se sentirá também confundido pelo repto lançado por Tristano: quem testemunha pela testemunha? Sendo notório que um registo oral será sempre diferente de um registo escrito, mesmo que feito pela própria pessoa na pesquisa dos insondáveis motivos e memórias estranhamente seleccionadas ao longo da vida (pois não memorizamos exactamente aquilo que pensamos que memorizamos ou quereríamos memorizar), será ainda diferente um registo escrito por interposta pessoa na base da descrição oral de farrapos de uma existência, onde, como em tantas outras, muita coisa está ainda por explicar, detalhes ou outros aspectos aparentemente importantes para o próprio ou para os outros, e vice-versa, numa espiral de milhentas combinações de pretensos factos do qual mesmo a História oficial só tem um registo superficial e enganador.
Numa vida preenchida na luta pelo ideal da liberdade, em várias guerras e disputas num aparente sentido certo, Tristano é presa de um tempo de ilusões pós-absolutistas, chegando a uma liberdade que tiraniza a humanidade numa forma exteriormente e superficialmente correcta, mas onde a desigualdade impera num sistema democrático apodrecido que progressivamente vai mostrando as suas inconsistências e fragilidades. A tirania que permitia que todos fossem iguais sobre um ideal apertado, a democracia que permite que todos sejam iguais sobre os ideais que quiserem, na prática com resultados quase igualmente desastrosos. A exploração do homem pelo homem, eterno signo da humanidade.
Nos farrapos de memória embelezados pelo fascínio da personalidade de Tristano, estranho homem perseguido por uma mulher e perseguidor de outra, irreconciavelmente predestinado a nunca encontrar a sua paz interior senão num interlúdio de morte, onde, por interposta pessoa, ficará o registo que, não sendo fiel ao seu, será, de certeza, o melhor possível, nem melhor nem pior do que ele próprio, ou outro, teria feito.