Opinião
«Água, Cão, Cavalo, Cabeça» trata-se de um conjunto de retalhos literários que retractam aspectos sórdidos da existência humana, situações comuns que vistas de outra perspectiva (supostamente do autor) não são assim tão comuns, e situações invulgares que são menos invulgares do que aparentam à primeira vista. Os costumes e a moral, alicerces perenes da sociedade, desmantelados a partir de alguns dos seus (muitos) pontos fracos, numa visão tão deprimente quanto assustadoramente real das motivações ou interpretações que estão por trás dos actos das pessoas.
Num misto de divagações existenciais pertinentes e relatos cruéis, a verdade escondida por estes textos revela que o excesso de lucidez mostra-nos um mundo sem sentido, ou, melhor ainda, um mundo com imensos sentidos, normalizado de forma redutora por forma a simplificar um sentido comum de vida que, visto à lupa, se encontra cheio de incongruências e que mal se sustenta, suportado por uma maioria domesticada pelos costumes, tão frágeis quanto diferentes de povo para povo e de época para época.
A crueldade da normalidade no seu esplendor, as vítimas e desvios anormais que talvez se justifiquem, a repugnância servida de forma sublime, numa escrita muito objectiva e sucinta, já característica deste escritor que assim oferece uma pequena compilação de alguns dos seus textos soltos e acutilantes acumulados no baú.