Opinião de Leitura
Quando Nietzsche Chorou Quando Nietzsche Chorou

Autor: Yalon, Irvin D.

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Opinião

Um Nietzsche em desespero consulta Breuer, um reputado médico vienense que é amigo de Freud. Uma desilusão amorosa coloca em risco a continuação dos escritos de um dos mais promissores filósofos de todos os tempos, algo que Breuer deverá tratar de forma subtil, uma vez o verdadeiro motivo assumido pelo filósofo são sintomas físicos de ataques fortes de enxaqueca que duram vários dias. As consultas decorrem em clima de grande tensão, uma vez que Nietzsche esgrime com argumentos extraídos da sua filosofia qualquer tentativa de Breuer lhe fazer reconhecer que necessita de um tratamento e de ser internado. Ao tentar que Nietzsche se convença que os seus problemas físicos o impedem de prosseguir com menor dificuldade os seus escritos filosóficos, Nietzsche constrói toda uma retórica em que se convence a si próprio de que os seus problemas são um factor de dificuldade que o ajuda nos seus escritos, por ter que os vencer e aproveitar o melhor possível os momentos em que se sente bem. Uma teoria de diagnóstico de stress postulada por Freud e servida por Breuer causa ainda maior solidificação na atitude irredutível de Nietzsche, o que agudiza a tensão entre médico e paciente, causando uma ruptura culminada na acusação e dissertação de Nietzsche sobre que o verdadeiro motivo de Breuer é este exercer poder sobre ele, e a sua auto-glorificação e fama por ter tratado um filósofo, dissimulado por uma capa de boa-fé, ainda que Breuer pudesse não ter consciência disso.

Uma grande crise de enxaqueca faz com que Nietzsche fique quase inconsciente, o que permite que Breuer o trate e abra nova porta para uma segunda tentativa de cura do seu problema amoroso. Para evitar erros passados, Breuer monta uma estratégia em que pede a Nietzsche que o trate, do ponto de vista filosófico, a uma obsessão amorosa que tem, em troca de um tratamento mais eficaz às suas enxaquecas.
Dá-se assim início a uma viagem sem retorno pelos sintomas de Breuer, que se revelam muito mais complexos do que este suspeitaria, em que toda a sua vida e existência é posta em causa, e onde, sob a batuta de Nietzsche, se dá um autêntico tratamento filosófico que coloca Breuer numa situação limite em que precisa de mudar radicalmente a sua vida. Contudo, uma sessão hipnótica de Breuer com Freud dará a chave para a resolução de todas as questões psicológicas e existenciais de Breuer, e, usando este uma receita equivalente mas ao vivo com o paciente em plena consciência, a resolução do problema principal de Nietzsche.

Um tratamento filosófico a um psicólogo, e um tratamento psicológico a um filósofo, numa época em que o tratamento psicológico dava os seus primeiros passos, é o tema desta ficção baseada em muitos factos reais, sendo apenas ficcionado o relacionamento entre Breuer e Nietzsche, uma vez que todas as outras circunstâncias em torno da vida de Nietzsche e Breuer são reais - daí que excertos de cartas verdadeiras de Nietzsche sejam incluídos no romance.
Um romance que talvez peque por uma sequência forçada de acontecimentos e desenlaces, dando ênfase ao diálogo retórico que por vezes soa artificial, rico em discussão de ideias a um nível superficial mas agradável, interessante na forma como são expostas na práticas algumas das teorias de Nietzsche.

A teoria do eterno retorno - «viverás a mesma vida vezes sem conta, logo convém que esta seja aquilo que realmente queres que seja» - vai acabar por ser uma das chaves para a resolução dos problemas de Breuer, e o diálogo cada vez mais fraterno e íntimo de Breuer com Nietzsche o contributo de Breuer para que Nietzsche possa, de uma vez por todas, assumir a sua senda solitária estando consciente que afinal existe (porque experimentada entre ele e Breuer) uma via para a fraternidade sincera entre os homens.

Seria injusto não mencionar o papel activo e passivo que três mulheres - Salomé, a amiga de Nietzsche, sendo esta que procura Breuer para que trate Nietzsche sem que este saiba que foi ela que o procurou, Anna O., a paciente de Breuer por qual este cria uma obsessão amorosa como refúgio à sua vida sedentária, e Mathilde, a doce esposa de Breuer - desempenham em todo o processo de causa e cura do filósofo e do psicólogo, que, por causa delas e em virtude delas, identificam questões existenciais mais profundas que são a verdadeira causa dos seus problemas.

A glorificação da amizade pura, a tomada de consciência das reais opções de vida que cada um toma, a simbiose entre a filosofia e a psicologia num caso prático e numa linguagem acessível, são alguns dos pontos fortes deste romance escrito por um psiquiatra entusiasta e estudioso de Nietzsche.

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