Opinião de Leitura
Do Sentimento Trágico da Vida Do Sentimento Trágico da Vida

Autor: Unamuno, Miguel

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Opinião

«O Sentimento Trágico da Vida» trata-se de um ensaio filosófico, embora de carácter mais pessoal e apaixonado que filosoficamente sustentável, que escalpeliza ao detalhe o sentido da existência humana, ou, mais precisamente, a angústia que todos os seres humanos, uns mais, outros menos, sentem perante a própria vida ou do facto da morte, aliviada ou não pela adopção de uma religião.

Na primeira metade do ensaio Unamuno concentra-se na desmistificação da ideia de se procurar usar a razão para tratar das questões existenciais que roçam o espiritual, que são sustentáveis para cada um individualmente pela fé e de forma socialmente abrangente pela religião, base de pensamento para uma imortalidade, eternidade ou prolongamento do ser, resultando num conforto ou consolação de uma vida que assim melhor se justifica perante o nada que representa a alternativa racional. O autor sustenta a limitação das doutrinas filosóficas considerando-as como abstracções objectivas de pensamentos subjectivos do sentir de cada homem-filósofo, e ainda limitados pela língua em que são pensados e escritos, restrita à história cultural de cada povo - assim, o saber racional filosófico é enfermo, logo na base, de todo o tipo de subjectividades em que assenta toda uma experiência individual e cultural de um determinado conjunto de indivíduos que vivem numa mesma sociedade, da mesma forma que a religião.

Unamuno sustenta que a ânsia da imortalidade corresponde ao prolongamento da consciência de cada um, na não aceitação da morte como meta final de uma existência. Em todos os tempos o homem tem procurado o «porquê» (da existência) para chegar ao «para quê», quando talvez faça mais sentido obviar pela segunda abordagem, uma vez que a finalidade dessa ânsia é viver sempre, e não conhecer sempre (a tarefa da razão). Como exemplo prático do prolongamento da consciência refere o artista que se imortaliza através da sua própria obra, e especialmente quando este sacrifica a grandeza da sua fama (perante os seus contemporâneos) à sua duração, o que, extrapolando, é a característica de todos os homens, artistas ou não, que têm sido a base do progresso, principalmente cultural mas não só, da humanidade - a minoria que vê além do seu quotidiano, cuja dedicação à obra acaba por se tornar uma «religião».

Com base nas especulações acima o autor faz um exercício a que chama «dissolução racional», ao fim do qual prova cabalmente que através da razão nunca se conseguirá chegar à consolação necessária da angústia de viver, classificando-a como potência desconsolante e dissolvente. O conflito entre a razão e o sentimento vital é, incontornavelmente, uma base que o homem tem que aceitar e viver de acordo com isso. A partir daqui, seguindo um exercício de pensamento ainda mais pessoal que propriamente filosófico (o qual o próprio autor declara e assume), Unamuno junta todas as partes necessárias por forma a construir um corpo de pensamento que, alicerçado na fé na imortalidade, passando pela religião, encontra uma explicação para todas as questões existenciais com base nessa linha de pensamento - em suma, a interiorização de que a nossa vida e os nossos actos se irão repercutir no todo da humanidade após a nossa morte faz com que toda a ideia de imortalidade e eternidade façam todo o sentido ainda que não sejam defensáveis numa razão levada ao limite: «Ser perfeito é sê-lo todo, é ser eu e ser todos os outros, é ser humanidade, é ser universo. E não há outro caminho para ser tudo o resto, que não seja dar-se a tudo, e quando estiver tudo em tudo, tudo estará em cada um de nós»

É notório o uso de imensos pensamentos dos mais variados pensadores, filósofos e outros, com imensas citações, de forma a empreender uma linha de raciocínio sustentada que o autor pretende abrangente. Ainda que para o leitor este ensaio possa carecer de consistência, o seu conteúdo riquíssimo em termos dos pensamentos que expressa, directamente pelo autor ou indirectamente pelos autores citados pelo mesmo, e a forma apaixonada e quase convincente pela qual o autor leva o leitor a pensar nos mesmos temas, fazem deste ensaio um livro extremamente interessante na medida em que, quer para o ateu quer para o não ateu, dá uma perspectiva global de todo o tipo de questões existenciais que se lhes colocam, enquadrando-as numa sequência de pensamentos que fornecem uma base sólida de reflexão lúcida que certamente enriquecem o saber pessoal de cada um e uma maior consciência das opções espirituais que tomam.

Comentários

Comentário do Editor:
“Do Sentimento Trágico da Vida” é, conforme disse o próprio Unamuno, a sua maior obra e o melhor expoente do seu pensamento filosófico. A colisão entre o pensamento científico, incapaz de dar sentido à vida, e a moral religiosa carente de justificação pessoal provoca em Unamuno a questão urgente do sentido da existência. O antagonismo irreconciliável entre o coração e a razão, entre o tudo e o nada, leva Unamuno ao “abismo do desespero”, onde o homem deve lutar, seguindo o exemplo vitalista de D. Quixote, “cuja fé se baseia na incerteza”.

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