Opinião
Daniel, humorista sarcástico e tenebroso com relativo sucesso mediático, torna-se vítima de um dos piores inimigos do ser humano: a velhice, quer pelo enfraquecer da função obsessivamente vital do sexo, como expoente da juventude, quer pelo ostracismo da sociedade actual que condena a uma morte prematura qualquer homem a partir de determinada idade, por via da exclusão. Assim, a obsessão sexual é um dos temas fortes deste romance, sendo para Daniel o pólo fulcral pelo qual se mede a distância para a juventude e para a velhice, a um ponto que o faz preferir uma relação sexual sem amor, com Esther (sintomático, segundo a personagem, dos tempos de hoje), a uma relação amorosa com pouco sexo, com Isabelle, sendo ambas as relações bem vividas pela personagem durante um longo período de tempo.
Daniel24 e Daniel25, clones à 24ª e 25ª geração de Daniel, constatam esses factos deixados por este como relato auto-biográfico à seita elomita que o encarregou do mesmo como legado às suas gerações futuras, produzidas a partir do seu ADN primário. Cerca de dois mil anos depois, são estes clones que, embora frutos de vários processos de purificação pós-humana, a pouco e pouco se deixam envolver pelas questões existenciais consideradas primitivas de Daniel, quando já deveriam estar a salvo das deficiências humanas que se prendiam com os sentimentos e sensações traduzidas nas muito deficientes e catastróficas relações interpessoais e sociais da humanidade, entretanto devastada por vários cataclismos, consequência de todas as más decisões e acções do homem ao longo da História.
A descoberta da seita elomita constitui, até certo ponto, a salvação de Daniel, que, por meio de relatos contundentes e pungentes, nos dá um retrato tanto pessimista como tristemente real dos dias de hoje, mormente em relação ao esvaziamento de valores após ter também contribuído para o desmoronamento da cadeia dos existentes. Numa postura amarga mas extremamente lúcida, ajudado pela progressiva solidão que a sua velhice acentua, a possibilidade de uma imortalidade através da sua própria clonagem proporciona-lhe uma esperança vaga de tudo vir a ser diferente, embora o seu desespero existencial e crescente angústia face ao cansaço ou impossibilidade física de novos objectivos o instasse ao suicídio.
Daniel25, numa existência solitária, forçada mas considerada pura na sociedade de neo-humanos em que vive, onde não existem contactos físicos e onde todos os sentimentos foram banidos há vários séculos, deixa aos poucos entranhar em si uma certa nostalgia existencial, em virtude das leituras dos relatos de Daniel e também pelas lufadas de humanismo poéticas que recebe de outro clone que vive distante de si. Bem superior aos poucos selvagens humanos que ainda sobrevivem como animais nos mais básicos e cruéis instintos, o neo-humano Daniel25 interroga-se sobre o meio-termo entre o humano e a razão absoluta sem sentido para onde a sua sociedade caminha, antevendo que não existe humanidade sem fraternidade, feita de relações inocentes e puras tal como tem com o seu cão clonado, à imagem do que aconteceu com Daniel, dois mil anos antes.
«A Possibilidade de uma Ilha» trata-se, assim, de um romance onde tudo o que diz respeito à humanidade, à sua história e ao seu tempo presente, é posto em causa, e onde num devir possível através da tecnologia e da religião se chega a um mundo expurgado de todas as deficiências humanas, soberbamente comandado pela razão, suficientemente estável ao longo de séculos para se acreditar numa verdadeira evolução, mas lentamente corroído pelo fatal ciclo de necessidade de mudança inerente a todo o ser humano, ao encontro da sua realização como tal.
Numa escrita por vezes um pouco densa mas cativante, muitas vezes crítica e filosoficamente (bem) sustentada face às questões que se colocam a Daniel, demonstrando uma mestria absoluta e um grande à vontade no tratamento dos temas fortes ligados à existência humana e à vida em sociedade, com foco nos tempos actuais, sem esquecer os ensinamentos de muitos filósofos traduzidos e citados em pensamentos práticos, Houellebecq oferece um contributo, tão macabro quanto útil, de uma lucidez que tanto pode agradar quanto deprimir o seu leitor, mas deixando a réstia de esperança de que uma ilha sempre existe, não importa quantas crueldades aconteçam e continuem a acontecer ao longo de todos os tempos, nas mais variadas formas, inevitáveis como parte integrante e indissociável da existência humana e da própria Natureza.