Opinião de Leitura
O Animal Moribundo O Animal Moribundo

Autor: Roth, Philip

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Opinião

Um romance curto mas largo na amplitude das reflexões fracturantes que causa no leitor, «O Animal Moribundo» centra-se na temática da liberdade sexual para a partir daí efectuar derivações do mais variado tipo de perspectivas e consequências consoante a atitude de cada um na tentativa de controle e melhor usufruto da força motriz da sobrevivência humana.

David Kepesh, crítico de arte com mais de sessenta anos, tem uma vida libertina e independente desde que se divorciou há muito tempo atrás, e é adepto de relações sem compromissos formais nem obrigações com o sexo oposto, mas paradoxalmente torna-se vítima dos mais básicos instintos de posse e ciúme ao apaixonar-se por uma sua aluna na casa dos vinte anos, com quem mantém uma relação discreta e angustiante na medida da certeza da breve duração da mesma, feita de tórridos momentos sexuais com contornos de poderes subtis mesclados por obsessões ou traços de carácter em jogos de interesses que roçam entre os instintos mais básicos à sofisticação de toda uma cultura induzida ou absorvida, numa cumplicidade afectiva e intelectual baseada na admiração da jovem pelo amante que é visto como um símbolo daquilo que almeja num homem maduro e culto.

A esta licensiosidade de Kepesh contrasta a vida púdica mas falsamente moral do seu filho, que, não querendo seguir o exemplo do seu pai criou um rumo de vida que o levou a uma situação caótica, dividido entre uma família onde já mal suporta a mulher que deveria amar, e uma amante com quem parece querer repetir o mesmo erro que aconteceu com o seu casamento, passando de um pesadelo para outro. A inversão de papéis entre pai e filho, a descrição da apoteose libertina dos anos 60 que degenerou numa liberdade inconsciente e desprovida de sentido, caracterizada algumas décadas depois por um festejar de passagem de milénio que apenas anuncia os primeiros tempos de uma nova era de trevas, vazias que se encontram as motivações frágeis e fúteis da maioria da sociedade, ocidental e ocidentalizável.

A morte, como contraponto a tudo isto, é bem sentida e presente ao longo do romance, em diversos acontecimentos trágicos que se dão com alguns dos seus personagens, colocando a nú os anseios mais básicos que se escondem por detrás de toda uma sofisticação comportamental ou intelectual.

Não há verdadeiro controlo da natureza humana em cada um de nós, o animal moribundo que obedece aos seus instintos mais básicos facilmente quebra a redoma das suas convicções, racionais ou não, cedendo áquilo que mais ou que menos deseja, revelando nos momentos de extremos a fragilidade de construção do carácter humano - esta é uma das mensagens que Roth faz passar, além da outra em que caracteriza como perdidas porque vazias de sentido as gerações actuais. Um quadro lúcido e pungente do ser humano no cumprimento de cada existência individual, e um retrato deprimente da sociedade actual, vítima da euforia efémera resultante da paranóia do consumo e da vulgarização pela espectacularização de todos os momentos, esvaziante do sentido da existência humana.

Um ser humano que não aceita a sua incoerência e que por isso se vulgariza numa consistência oca, inserido numa sociedade que nivela todos os valores por uma bitola controlável e manipulável pela economia e pela política, agravada pelo efeito da globalização ocidentalizada, sem saída à vista a não ser um fechar de portas em torno de si próprio. E neste fechar o único consolo, ao mesmo tempo sinal de decadência e esgotamento da civilização actual.

Concluindo, um romance tanto lúcido como macabro, que ajuda a colocar sobre perspectiva a verdadeira natureza dos comportamentos humanos e sociais.

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