Opinião
Uma história de amor vivida ao longo de mais de meio século, passada numa cidade da América do Sul dos tempos coloniais (às portas do século vinte), onde os seus protagonistas, Florentino e Fermina, se perdem de amores um pelo outro nas suas adolescências, e só materializam esse mesmo amor cinquenta e três anos depois, após quase toda uma vida de idealização, por parte de Florentino, e de vivências frustradas, por parte de Fermina.
Florentino é um homem dito feio e pouco atraente, mas com uma forte capacidade de sedução fruto do ideal de amor que alimenta por Fermina, fermentado através da leitura de livros alusivos ao tema do amor e de imensos escritos dedicados à sua amada. Após mais de dois anos de cartas escritas e do posterior exílio forçado de Fermina, que acaba por voltar para pouco depois se deixar seduzir por um casamento de conveniência com um dos mais ilustres médicos da cidade, Florentino, cumprindo um período de desalento desesperante, inicia uma carreira profissional com o objectivo de vir a ser digno do seu ideal de amor ao mesmo tempo que, violentado na sua virgindade sexual por uma desconhecida que não lhe dá qualquer outra hipótese num cruzeiro pelo rio, vive relações tórridas e muitas vezes proibidas com todo o tipo de mulheres, solteiras, casadas e viúvas, cada uma destas bem distintas na forma como acontecem, na riqueza da própria relação e no seu desenlace, uns trágicos, outros cómicos, outros simplesmente comoventes.
Juvenal Urbino, o famoso médico que é precisamente a personagem com que o romance se inicia, encarna o altruísmo e o homem de grandes obras, magnânimo nas suas acções e merecedor de toda a felicidade, cujo destino se cruzou com o de Florentino pelas piores razões mas que será sempre respeitado por este e por Fermina enquanto vive. Fermina aguenta uma vida de fachada e de frustrações acumuladas, com uma imagem de grande senhora e invejada por toda a gente, e será com muita dificuldade que se libertará da sua própria teia para redescobrir o grande amor da sua vida.
Um romance grandioso que representa um hino ao amor, o amor que não conhece qualquer tipo de fronteiras e rancores, o amor que é eterno ainda que os seus protagonistas enveredem por caminhos aparentemente irreconciliáveis e sem possibilidade de reencontro, o amor que, passada a fase ingénua de grandes tiradas românticas de jovens imberbes, se consolida num distanciamento à vivência quotidiana que, apesar de todas as emoções vividas, ou talvez mesmo por isso, se destila num diamante ainda mais puro que faz com que os amantes acabem por vir a viver, de facto, o maior de todos os amores quando estão já às portas da morte, numa loucura adolescente à sombra da fétida cidade onde os amores vulgares se concretizam no imediato de vidas também vulgares que se cumprem e esgotam de forma estéril e que rapidamente matam as suas ilusões.
O génio da Garcia Marquez faz com que a descrição pobre mas real apresentada acima seja apenas uma introdução breve a um livro cuja riqueza advém de todos os detalhes e do evoluir da própria narrativa, revelando página a página as peças de um puzzle declarado no final do primeiro capítulo e apenas retomado no último para um desenlace final de grande beleza.