Opinião de Leitura
Todo-o-Mundo Todo-o-Mundo

Autor: Roth, Philip

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Opinião

Um romance que retrata a suprema fragilidade e inconsistência do ser humano, num cenário de funerais e doenças, centrados numa personagem que, após uma infância feliz e uma vida profissional relativamente tranquila e bem sucedida, anda à deriva numa velhice onde recorda os vários pontos-chave de súbitas mudanças na sua vida, entre três casamentos com sortes distintas e ódios e rancores criados que escaparam ao seu controle, numa busca incessante de uma felicidade cada vez mais comprometida pelo passado, numa fatalidade em que a morte do pai e o distanciamento progressivo de todos os que o rodeiam o deixam sozinho apesar da maré de doenças que o afectam e as cirurgias médicas delicadas a que regularmente é submetido.

No apego ao passatempo de pintar que é a sua última réstia de chama na vida, que foi constantemente adiada até à sua reforma, rapidamente encontra as limitações que não quis antever noutros tempos e que resultam no desabar final do significado da sua existência. Entre cemitérios e hospitais, doces recordações e momentos de loucura, um irmão sempre amigo e uma filha com um amor sem igual, as vicissitudes e percalços das vidas de todos, aliadas a más decisões que são mais emotivas que racionais, traduzem uma solidão final que é representativa do destino comum de todos os homens que, na sofreguidão estéril que é a procura instintiva do melhor para nós próprios numa independência completa de tudo e de todos, chegam a um porto seco onde nada nem ninguém os espera.

Num estilo cativante mormente a narrativa poder ser um pouco deprimente para alguns leitores, «Todo-o-Mundo» acaba por comover ao revelar a beleza das emoções do ser humano nos grandes e pequenos momentos da vida, pelo meio de todas as suas incoerências, no cumprimento de um destino cujos ideais e esperanças se renovam quase todos os dias, onde apesar de todas as derrotas passadas acaba por vir ao de cima o vício de viver que, não importa a idade, tudo esmaga na construção de novas ilusões.

Excerto

A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade - a conversa infantil e a virtude e o rebanho, a avidez dos crentes. Não embarcava em babelas sobre a morte e sobre Deus nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós. Se dele se pudesse dizer que tinha escolhido um nicho filosófico, era esse - tinha-o descoberto cedo e por intuição, e talvez fosse uma visão elementar mas nem por isso deixava de ser completa.

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