Opinião
Memórias de Adriano é uma auto-biografia sob a forma de carta do Imperador romano Adriano (século II DC) ao seu sucessor Marco Aurélio. Construída a partir de uma recolha de textos antigos ao longo de muitos anos, Marguerite Yourcenar deu corpo a este romance baseado em factos e ideias reais e documentadas, numa narrativa que combina as reflexões pessoais de Adriano com os factos cronológicos e públicos em torno da sua pessoa, que se transforma numa leitura cativante pela sabedoria revelada ao longo da sua vida, no auge do melhor da civilização romana, combinando todos os ideais de ordem, progresso, justiça e liberdade com uma cultura visionária de um homem que teve uma fortíssima formação académica na escola grega e foi sempre grande aficionado de todos os temas ligados à arte e à literatura.
Adriano foi vítima de todo o tipo de intrigas palacianas típicas de quem se move nos meandros do poder, agindo de forma pragmática e eficaz na resolução de conflitos, e, em termos do vasto império que ia desde a Inglaterra até à Pérsia, a prolongar a pax romana recorrendo o mínimo possível à força, com negociações e compromissos inteligentes próprios de um homem de Estado que, pelo relato, é porventura um exemplo até para o seu equivalente nos políticos dos dias de hoje.
Entre uma carreira humilde e sem dever nada a ninguém até chegar a imperador, o estabelecimento de medidas inéditas após a sua consagração como tal, a polémica do seu amor homossexual por um jovem grego chamado Antínoo em honra do qual erigiu uma cidade de raiz no Egipto, e a procura de um sucessor que seguisse a sua linha de pensamento (e de facto encontrou-o, pois Marco Aurélio, como se pode avaliar pelos seus escritos, era também adepto de uma verdadeira sabedoria de vida visionária para o seu tempo), esta narrativa é o retrato de um homem que não ignorava que um dia a civilização romana acabaria tal como outras civilizações no passado, consciente de uma fatalidade do destino humano baseado nas suas características incoerentes e voláteis conforme o próprio deixa transparecer nas suas reflexões, de grande nível e completamente actuais, ou melhor, eternas.
Excerto
Como toda a gente, só disponho de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de nós próprios, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os têm; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes últimos serem considerados frívolos, e devo-lhes talvez mais informações do que as que recebi das situações bastante variadas da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável. Os filósofos, para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros de mais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros; dispõem de novo esta dócil matéria morta, e eu sei que Alexandre escapará sempre mesmo a Plutarco. Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.