Opinião
Um romance ricamente complexo pela multiplicidade de temas discutidos quase sob a forma de ensaio, centrado num pequeno conjunto de personagens com relações estranhas entre si, ambíguas naquilo que constitui a dificuldade de identificação com o que julgam que pretendem na vida, presas de personalidades que o autor descortina aos poucos, no meio de divagações lógicas que também a pouco e pouco se vão encaixando num puzzle onde são escalpelizados os vários tipos de amor, identidades e imortalidades.
A busca da imortalidade, retratada pelos diálogos alegóricos entre Goethe e Hemingway (que viveram em tempos diferentes), a pequena imortalidade prodigalizada nas atitudes das personagens, e a desmistificação dessa mesma busca acentuando o carácter pérfido, vão e inglório da mesma, numa apologia ao sucesso do acaso, do episódio fortuito, e da imagem que os outros fazem daquele que quer ser lembrado por algo completamente diferente. A exacerbação do conceito da imagologia como devorador de todas as ideias e ideais, a modernidade que rapidamente se transforma em antiguidade, a glória que se volta contra si própria.
Um divertido professor Avenarius em diálogo com o narrador, as personagens Agnés-Paul-Laura-Bernard e as suas relações, o outsider Rubens e as suas loucuras eróticas mais um autêntico tratado sobre o amor e além do amor, completam um conjunto de quadros quase neuróticos que tem a sua sustentação nos amores da ambiciosa jovem Bettina com o poeta Goethe, e os duvidosos motivos e concretização da imortalidade obtida por este, juntamente com Hemingway e Beethoven. Tudo é relativizado e a importância de cada acontecimento ou cada pessoa na História da humanidade são postos à luz da sorte do acaso, e as motivações de cada um mais as suas repercussões que funcionam aleatoriamente no mostrador do tempo, mastigador impassível de ambições e talentos frustrados, eleitor cego daquilo que faz a Humanidade mover ou lembrar-se.
Excerto
O respeito que a tragédia inspira é muito mais perigoso do que a despreocupação de um chilrear de criança. Qual é a eterna condição das tragédias? A existência de ideias, cujo valor é considerado mais alto do que o da vida humana. E qual é a condição das guerras? A mesma coisa. Obrigam-te a morreres porque existe, dizem, alguma coisa que é superior à tua vida. A guerra só pode existir no mundo da tragédia; desde o começo da sua história, o homem apenas conheceu o mundo trágico e não é capaz de sair dele. A idade da tragédia só pode ser encerrada por uma revolta da frivolidade. As pessoas já só conhecem da Nona de Beethoven os quatro compassos do hino à alegria que acompanham a publicidade dos perfumes Bella. Isso não me escandaliza. A tragédia será banida do mundo como uma velha cabotina que, com a mão no peito, declama em voz áspera. A frivolidade é uma cura de emagrecimento radical. As coisas perderão noventa por cento do seu sentido e tornar-se-ão leves. Nessa atmosfera rarefeita, desaparecerá o fanatismo. A guerra passará a ser impossível.